sábado, 15 de agosto de 2009

Falta de directriz respeitável e respeitada. 051219

(Publicada no Público em 19 de Dezembro de 2005)

As notícias vindas a público, principalmente após as recentes eleições autárquicas, alimentam a ideia muito generalizada de que os políticos pensam, em primeiro lugar no seu poder, na sua vaidade e na preparação de um poleiro em institutos ou empresas públicas que, para esse efeito, não foram privatizadas na totalidade. Em segundo lugar, sem prejuízo para o primeiro objectivo, pensam nos interesses do partido, na medida em que o êxito dele os possa beneficiar. E, por fim, sem prejuízo para aqueles alvos prioritários, pensam nos interesses do Estado de forma avulsa não integrada numa directriz global.

Os acontecimentos demonstram que isto não é exagero, embora possa haver excepções, como em toda a regra. Vejamos um aspecto concreto muito actual da falta de estratégia, de directrizes, respeitáveis e respeitadas. Foi anunciado o encerramento de urgências em centros de saúde no interior, nos locais menos habitados, mais distantes de tudo, onde a população, sendo mais idosa, mais carece de apoio de saúde. Os decisores devem ter raciocinado com base em números, em estatísticas, como se uma pessoas doente mereça o mesmo mecanicismo de uma peça avariada numa linha de montagem fabril. Como se a vida de uma pessoa da Aldeia de João Pires valha menos do que a da sua irmã na Amadora.

E o mais preocupante é a contradição entre sucessivas decisões políticas. Num momento, fazem os brilhantes discursos habituais para nos convencerem de que é preciso combater a desertificação do interior e fomentar o desenvolvimento harmónico do País e, para isso, gastam o nosso dinheiro em largas auto-estradas que rasgam todo o território. Noutro momento posterior, com a redução do apoio na doença, provocam o aumento rápido e irreversível dessa desertificação. Aqueles que lá estão ou têm capacidade para se mudarem para os arredores de Lisboa ou para o outro lado da fronteira, ou terão uma morte rápida e sem assistência adequada, e ninguém com os neurónios em bom estado de funcionamento os irá substituir. E os governantes mantêm-se indiferentes, ou talvez satisfeitos com o seu sucesso na diminuição da quantidade de idosos que «pouco ou nada produzem e constituem um peso na Caixa Nacional de Pensões». E nem sequer pensam que, se eles próprios tiverem sorte, (em Portugal, isso é um azar) também virão a ser idosos. Mas, peço desculpa por este meu lapso, porque a velhice dos políticos será dourada, devido à acumulação de gordas reformas e outras regalias, ganhas em pouco tempo de cargo, como tem sido visto. Roguemos ao Deus dos crucifixos repelidos que ilumine os seus cérebros.

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