quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Desemprego ou aversão ao trabalho? 050104

(Publicada no Diabo em 4 de Janeiro de 2005)

O desemprego constitui um drama para muitas famílias que não têm fontes de rendimento para fazer face às necessidades vitais. Quando encaramos estes problemas, deparamos com os picos de sabedoria que encerra a velha frase «ganharás o pão com o suor do teu rosto». É indubitável a importância do trabalho, como fonte de rendimento. E fica sem resposta a pergunta «de que vive quem nada faz?».

Mas também é difícil encontrar explicação para o desemprego num país que recebe milhares de imigrantes para os mais diversos trabalhos. Desde a construção civil, aos condutores da Carris, aos telefonistas de muitas empresas, aos atendedores de restauração, deparamos com estrangeiros que chegaram cá e encontraram trabalho. Interrogamo-nos, por isso, sobre a razão de haver nacionais sem trabalho. Não haverá aversão ao trabalho? Não haverá trabalhos na economia paralela sobreposta a subsídio de desemprego ou a rendimento mínimo garantido?

Tenho ouvido versões espantosas e todas convergentes da parte de muitos pequenos empresários. Precisam de trabalhadores e aparecem candidatos que correspondem aos requisitos da função, mas que, ao saberem quanto vão receber, respondem que por essa importância não querem, pois pouco menos recebem de subsídio e não têm que trabalhar nem obrigações de horário. Um empresário de restaurante tinha uma cozinheira com dois filhos pequenos a estudar, para quem ajudou a conseguir um subsídio que era quase do valor do ordenada dela. Ficou sem a empregada porque ela preferiu fazer mais companhia aos filhos e viver do subsídio acrescido de algumas horas em trabalhos domésticos.

Mas o que mais me choca são as imagens da TV mostrando trabalhadoras relativamente jovens, de empresas em falência, queixarem-se de que não sabem fazer mais nada. Então onde está a capacidade para reciclagem? Onde está a formação profissional? Onde está o estímulo dos sindicatos para aprenderem mais qualquer coisa a fim de sobreviverem no caso de colapso do actual empregador? Parece que a evolução ainda não chegou a muitos cérebros que continuam a pensar que é meritório trabalhar sempre no mesmo patrão, nas mesmas funções, desde o início ao fim da vida activa. Isto demonstra escassa preparação escolar e profissional, e fraca flexibilidade e capacidade de mudança e de adaptação a novas funções e a falta de iniciativa para iniciarem outras actividades. Outro aspecto que não será alheio a este problema é a vaidade e o preconceito: por terem alguns estudos, algumas pessoas só estão dispostas a aceitar trabalhar em escritórios com computadores, mesmo que nada saibam de elaboração de documentos, da sua classificação e arquivo e de organização bibliotecária. Enfim, querem salários de jogadores célebres apesar de nem servirem para apanhar as bolas que saem do rectângulo.

Há quem diga que não querem trabalho, mas sim «emprego», isto é, salário mensal. É certo que a economia não está em fase de vacas gordas. Mas não há dúvidas que se o trabalho feito por imigrantes o fosse por nacionais, o desemprego teria valores muito inferiores. E porque não o é? Deixo a resposta para os estudiosos da sociologia.

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