domingo, 15 de agosto de 2010

O António virou irónico

O meu Amigo António, tal como a maioria das pessoas da sua idade – deve andar perto dos oitenta mas não diz quantos tem nem em que dia os completa – não sente a mínima atracção pela informática. Diz que um dia tentou e fez um clic errado, estragando tudo o que tinha estado a tentar escrever. Depois desse azar, não quis continuar a lutar contra uma máquina tão estranha e caprichosa!

Mas consegui convencê-lo a visitar, devidamente apoiado pelo neto, um dos meus blogs o que pensei lhe podia despertar alguma simpatia. E depois telefonou-me – embora também não morra de amores por essa máquina que permite ouvir vozes que vêm sem se saber de onde, como acontece aos mentecaptos – e contou-me que a visita o fez lembrar de uma história contada pelo Eça ( A Luisinha Carneiro torceu um pé) de que já não se recordava bem mas que traduziu em português moderno.

Numa reunião do Jet Set, gente pedante sem cultura profunda mas convencida e deslumbrada com pequenas coscuvilhices, falava-se das telenovelas, do Ronaldo, da festa dada por alguém que fez 4 anos de qualquer coisa, do vestido da Isa, dos amores estranhos de um político, quando chegou o Ambrósio, um tipo sereno, controlado e pouco atreito a conversas sem ensinamentos, sem análise, que olha para as realidades com a calma de quem procura conhecer as causas e as consequências.

Como as suas opiniões são escutadas com interesse pela vacuidade das senhoras, todas se dizendo quarentonas mas com rugas no pescoço que, apesar de disfarçadas por técnicas modernas, indicam mais de 60, todas as circunstantes exclamaram o seu prazer pela chegada do tipo e lhe perguntaram novidades.

Imaginem, disse ele, na China a chuva torrencial causou inundações terríveis e desabamentos de terra que causaram mais de um milhar de mortos, desaparecidos e desalojados. Não obteve qualquer reacção. As pessoas ficaram impávidas e serenas, porque isso não as impressionava minimamente.

Contou depois que na Rússia há uma vaga de fogos que poderá atingir uma zona onde caíram cinzas de material radioactivo devidas à explosão da central nuclear de Chernobil e que, se isso acontecer, os ventos poderão espalhar nuvens altamente tóxicas que irão vitimar milhares de pessoas em vasta área. A Necas perguntou se por isso teria de deixar de comer pudim Molotov. Mas as restantes ficaram impávidas e serenas, porque isso não as impressionava minimamente.

Depois falou dos incêndios na serra da Gralheira que destruiu tudo numa área equivalente a muitas centenas de campos de futebol, ocupando muitas centenas de bombeiros idos de vários pontos do País e deixando a população local muito desgostosa e abalada, havendo muitos idosos que diziam em tom sufocado e desiludido que agora só lhes falta morrer. As pessoas ficaram, embora um pouco curiosas onde fica essa tal serra de Gralheira, e a Mitó perguntou se uns amigos que vivem em Tondela poderiam sofrer com o fumo, mas pouco se mostraram impressionadas.

Deu então a notícia de que a Licas, ao descer do Mercedes, colocou o pé numa falha do lancil do passeio e sofreu um entorse no tornozelo esquerdo, estando imobilizada em casa, depois de lhe terem engessado o pé e a perna. Foi o pânico naquele salão. Gritinhos de aflição. Coitada da Licas, com toda a sua vivacidade e dinamismo ter de ficar em casa! E começaram a sair para irem visitar a amiga do peito. Algumas passaram por casa para levarem à Licas a revista Maria, a Gente e outras leituras eruditas do género, e uma, mais instruída, disse que lhe ia levar «As Pupilas do Senhor Reitor» uma leitura muito intelectual de que a Licas certamente iria gostar se, no intervalo das suas dores, tivesse paciência para a leitura.

Estou confuso, sem saber bem onde o António queria chegar, mas estou à espera da próxima notícia do dia em que faz anos que caiu o primeiro dente do leite ao filho mais velho da Tânia Vanessa, neto da Sandra.

3 comentários:

J.Ferreira disse...

Amigo João!

Estou quase de saída, vou por aí com o José...
Felizmente ainda tenho uns minutos para fazer o que tinha programado para hoje.

Pois meu querido amigo, assim é...
Tal e qual!
O nosso amigo António,informado e de visão bem ampla, nada lerdo, bem pelo contrário, explicou-se muito bem.
Entendi tudo muito bem e estou totalmente de acordo com ele, não podia mesmo estar mais.

Ironicamente, ele fala-nos aqui do que é realmente importante e o que é trivial.

Não querendo ferir susceptibilidades, atrevo-me a dizer-lhe que devíamos todos atentar e reflectir muito bem sobre o que o António nos quer aqui transmitir.
Valorizemos e destaquemos o que é realmente importante.

Beijinhos e obrigada pelo magnífico texto, amigo João.

A. João Soares disse...

CAmiga Ná,

O meu amigo António está sempre atento e a sua cultura não tem limites. É um privilégio ter um amigo assim.

Ele foi fantástico ao glosar o texto do Eça, de memória.
Quis esta tarde encontrar o texto do Eça e procurei em todos os livros que aqui tenho e não encontrei. Tentei ir ao Google sem esperança, por não ter uma entrada segura, mas não tardei a encontrar

Se desejar conhecer o texto do Eça, procurem em «cartas familiares e bilhetes de Paris» ou no site

http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/eca-de-queiroz/cartas-familiares-e-bilhetes-de-paris-7.php

e desça até encontrar o título
«As catástrofes e as leis de emoção»

Beijos
João
Do Miradouro

Fernanda disse...

Amigo João!

Saíu-lhe uma Ná com cara de José :)))

É o que acontece quando se anda do Blog de uma para o outro!!!
Tudo isto por causa do Só Imagens.
Não faz mal, fica tudo em família:)))
Ainda não consegui ler o original que me recomenda, mas lerei.

Obrigada pela deixa no momento certo.
Beijinhos