segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Demografia e futuro do Ocidente

(Publicado no blogue Do Miradouro em 2 de Agosto de 2009)

Em relação ao post «Europa muçulmana em poucas décadas» recebi várias reacções, sendo a mais curiosa focada no aspecto religioso, na «guerra» de religiões, em que uma católica fervorosa, depois de falar com o pároco, disse que o Senhor nos salvará.

Porém o que me levou a publicar o post foi o problema demográfico do qual decorrem aspectos sociais, culturais e obviamente religiosos. Parece que nos tempos actuais, poucas pessoas, por livre vontade e sem lavagens ao cérebro, arriscariam a vida numa batalha movida por rivalidade religiosa. Pode no entanto esta ser utilizada tendenciosamente para ocultar interesses materialistas ou financeiros ligados a energias ou outros bens valiosos.

Mas o tema,
que parece ser fundamentalmente demográfico e afectar todo o Ocidente (o post referido citava a Europa baseado num vídeo mais focado na França), surge hoje no artigo seguinte que traz para Portugal tal preocupação sobre o futuro da nossa entidade social. Eis o artigo do Jornal de Notícias.

Portugueses em extinção?

Crescimento ínfimo da taxa de natalidade não chega para atenuar declínio da população nacional. Se a tendência não for invertida, estará Portugal condenado a morrer de velhice?

JN. 090802. 00h24m. ELMANO MADAIL

Os portugueses estão a fazer mais filhos. Mas não muitos; na verdade, o investimento nesse exercício é tão diminuto que não chega para repor as gerações.

A população portuguesa registou em 2007 - e pela primeira vez desde 1918 - um saldo natural negativo, de 0,01%. O que significa que morreram mais pessoas (103.512) do que aquelas que nasceram (102.492). A taxa de natalidade foi, nesse ano, de 9,7 nados vivos por mil habitantes, quando a de óbitos chegou aos 9,8 por mil. No ano passado, porém, vislumbrou-se um indício, ainda que ténue, de recuperação: segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) relativos a 2008, o país conseguiu uma saldo natural positivo de 314 pessoas. Não é muito, apenas uma trémula luzerna ao fundo do túnel sem retorno em que Portugal se pode converter, como um rectângulo vacante, à semelhança, aliás, da Europa quase toda - continente que se arrisca a ficar, definitivamente, velho, gordo e pouco imaginativo, condenado à morte lenta por falta de sangue novo.

Desde 2003 que o Governo tenta implementar programas de incentivo à natalidade, e ainda esta semana José Sócrates, na recandidatura a primeiro-ministro, apresentou a proposta, inclusa no programa eleitoral do PS, de criar um subsídio de 200 euros para cada criança nascida em Portugal. Mesmo que a implementação da medida gerasse bebés imediatos, já seia tarde para evitar as consequências nefastas que se repercutirão daqui a uma geração. Nessa altura, se a tendência refractária ao crescimento populacional não sofrer alterações, que Portugal teremos? Que paisagem humana será expectável em 2035? Estarão os portugueses em vias de extinção?

A taxa de natalidade em Portugal aumentou, mas não o suficiente para grandes exaltações. Em 2008, registaram-se mais dois mil nascimentos do que em 2007. Se é certo que é a primeira subida da taxa de natalidade registada em cinco anos, também é verdade que não servirá para atenuar o declínio que se verificou até 2007, um ano particularmente negro em que a natalidade diminuiu (a taxa atingiu, pela primeira vez, um saldo negativo de menos 0,01 por cento). O inédito, e a preocupação que deveria comportar, é sublinhado pelos especialistas: "É surpreendente esta evolução em tão pouco tempo. Durante toda a História da Humanidade, houve uma taxa de fecundidade próxima da natural em todo o Mundo", garante Maria Norberta Amorim, catedrática da Universidade do Minho (UM).

E com toda a propriedade. Pioneira em estudos no âmbito da Demografia Histórica, a coordenadora do Núcleo de Estudos de População e Sociedade da UM dedicou grande parte da sua investigação à análise dos comportamentos demográficos dos últimos 400 anos, e concluiu que uma situação assim "existe na Europa apenas desde o século XX - embora se tenha verificado na França com 100 anos de antecedência por a contracepção ter entrado ali primeiro -, mas foram milénios sem que isto acontecesse", afirma. Por isso é que, na sua perspectiva, "a evolução mais significativa da História da Humanidade, em termos de alteração do quotidiano, foi no campo da fecundidade".

A sê-lo, deve-se a uma nova compostura da mulher jovem essa revolução silenciosa do quotidiano. Para Maria Filomena Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Demografia, o fenómeno da baixa natalidade deve-se ao "aumento da participação da mulher no mercado de trabalho e a aspiração a uma carreira profissional bem sucedida, ao prolongamento da educação e ao duplo fardo que para elas implica trabalhar no mercado laboral e em casa, associados ao aumento da precariedade, tanto laboral como dos relacionamentos".

Acresce, ainda, segundo Maria José Moreira, "um adiamento progressivo da natalidade. Vários estudos mostram que há uma diferença entre o número de filhos que as mulheres gostariam de ter e aqueles que efectivamente têm. Um deles, publicado em Maio, diz que mais de metade das jovens entre os 18 e os 24 anos gostaria de ter três ou mais filhos, e um quarto das mulheres até aos 30 anos apreciaria ter quatro ou mais; todavia, acabam por ter só um ou dois, quando não nenhum", afirma Maria José Moreira, investigadora do Centro de Estudos de População, Economia e Sociedade, da Universidade do Porto, e professora no Instituto Politécnico de Castelo Branco. "Por outro lado", refere, "mudou a concepção do que é ter um filho: os pais temem não ser capazes de dar ao filho o que julgam ser as suas necessidades, tanto do ponto de vista afectivo como material". Daqui resulta a ausência da renovação de gerações, só possível com 2,1 crianças por mulher..

O desfalque de recursos humanos deve-se também, portanto, a um certo aumento do nível de qualidade de vida e ao temor de que a sua manutenção não seja comportável com mais uma boca para alimentar. E, no entanto, essa estratégia não é nova; todavia, os seus efeitos, agora, são muito diversos. "Nos séculos anteriores, todos os comportamentos das estratégias de reprodução estavam condicionados a uma fecundidade próxima da natural. Por exemplo, se uma família rural tinha propriedades e pretendia manter o estatuto e o património nas gerações seguintes, tinha de ponderar o momento do casamento, que se considerava definitivo. Assim, a estratégia passava por um casamento tardio - pelo que havia muitos solteiros, freiras e sacerdotes -, para evitar uma grande repartição da propriedade e obstar a uma regressão patrimonial na geração seguinte, porque se uma mulher casasse cedo, com 15 anos, dado o ritmo de nascimento de dois em dois anos, poderia vir a ter 10 ou mais filhos", explica Amorim.
A docente não deixa de manifestar, porém, a sua surpresa, quando compara a época actual, denominada pós-industrial e de celebrada abundância, com a fecundida da sociedade de há século e meio: "Nessa altura, na passagem de uma sociedade rural para uma que se vai industrializando, há um aumento da fecundidade, porque no mundo rural as mulheres amamentavam os filhos, o que era impeditivo de nova gravidez, e quando começaram a trabalhar, entregavam os filhos às amas, engravidando mais vezes, pelo que se deu uma explosão demográfica na transição do século XIX para o século XX. E, ainda hoje, a zona do Norte de Portugal é a mais jovem da Europa (com Felgueiras à cabeça)".

Será, pois, por comparação com o passado mais pou menos remoto e glorioso de Portugal que Amorim exprime grande inquietação face ao futuro do país, não só no plano económico - como será possível sustentar as reformas quando a população beneficiária for maior do que a contribuinte? - mas de forma mais lata. "É na juventude é que está a criatividade, a força, e uma população mais envelhecida terá mais difificuldades de afirmação", diz, sublinhando que "sempre que houve um excedente populacional, deu-se um salto evolutivo. Os Descobrimentos (séculos XV-XVI), por exemplo, devem-se em larga medida à força reprodutiva dos portugueses do Norte do país".

Parece que a salvação radica na mobilidade populacional, designadamente a injecção de sangue novo por via da imigração. De resto, os nascimentos de bebés de mães estrangeiras representam, já, mais de 9,5% da taxa de natalidade nacional. Mas, para equilibrar o saldo natural, será necessário muito mais. O que pode não acontecer. Por um lado, porque a crise económica e o atraso efectivo de Portugal face à maioria dos países europeus o coloca como pouco atractivo. As estimativas da população residente no ano passado, publicadas INE, mostram que o número de residentes que, em 2008, optou por abandonar o país mais do que duplicou em relação aos valores de 2001. Face à taxa de desemprego de 8,9% (dados oficiais do INE, relativos ao primeiro trimestre), 20357 pessoas decidiram abandonar o país para viver e trabalhar no exterior em 2008, mais de 10 mil do que há quatro anos.

Por outro lado, as zonas de origem dos imigrantes estão a padecer também, elas próprias, do envelhecimento populacional a par da melhoria de qualidade de vida, como é o caso dos países asiáticos. "Até meados deste século, a população mundial continuará a crescer, mas depois deverá diminuir. Portanto, até que ponto é que essas comunidades continuarão a ter a capacidade de fornecer gente? Porque a tendência já é, com tempos diferentes e ritmos diversos, uma progressiva diminuição do ritmo de natalidade. Na China, por exemplo, já começa a ser problemático", assinala Moreira.

Afinal, foi o que aconteceu a Portugal noutra época: "Nos anos de 1960, a Europa também precisou de mão-de-obra para fazer face às necessidades geradas por um grande crescimento económico. Só que, nessa altura, o Sul do continente, e designadamente Portugal, constituía a reserva demográfica da Europa. Ora, hoje, isso já não acontece, bem pelo contrário: não só temos a diminuição da natalidade, como já não conseguimos atrair gente".

Nestas condições, é natural os governos tentarem encontrar soluções domésticas que estimule a vontade reprodutiva dos governados. No entanto, tudo se conjuga para contrariar esse ensejo. Desde logo, a crise mundial que se instalou, e que tardará, segundo as previsões dos organismos internacionais, e até do Banco de Portugal, a deixar Portugal mais do que noutrsas paragens.

Por ocasião do 1.º Congresso Nacional da Maternidade, que decorreu em Março último em Lisboa, alguns dos especialistas cogitaram que a ligeira subida da taxa de natalidade registada em 2008 é "uma tendência que não vai continuar em 2009 devido à crise económica".

A alto-comissária da Saúde, Maria do Céu Machado, justificou o prognóstico reservado: "Sejam quais forem as políticas de incentivo à natalidade é preciso que, sobretudo, os casais jovens tenham uma certa segurança no trabalho", disse. "Os filhos são desejados mas também programados, e não me parece que este seja um ano muito propício para ter filhos", acrescentou a pediatra.

Sucede, porém, que por mais generosos que sejam os apoios à natalidade - e se em Portugal, o PS propõe, para a próxima legislatura, um subsídio de 200 euros a cada para criança, a depositar numa conta a prazo até aos 18 anos, em Espanha o Governo atribui 2500 euros... -, as medidas, neste campo específico, não costumam ter efeitos imediatos. É que, tipicamente, a gestação das crias humanas demora nove meses; e as gerações uma quarto de século a afirmar-se. Ora, nestas condições, se hoje somos poucos, amanhã seremos menos. E, quem sabe, se um dia não estaremos, como referia o economista João César das Neves à Focus, "em vias de extinção enquanto entidade social"?

Que futuro teremos?

(Publicado no blogue Do Miradouro em 5 de Julho de 2009)

Achei interessante coligir uma série de respostas a comentários num post recente e, desta forma, elaborar este post. Espero que ele contribua para reflexão dos leitores e obter comentários com a qualidade daqueles que aqui tem havido em assuntos como este.

As pessoas que observam com imparcialidade a sociedade actual preocupam-se com a ausência de valores que há poucos anos eram considerados o esteio da sociedade, das relações humanas, em todos os estratos sociais. Nacionalmente, as sucessivas «crises» políticas de promessas não cumpridas seguidas de outras promessas incumpríveis, os recuos devidos a decisões tomadas imponderadamente, sobre o joelho, a arrogância apoiada por uma teimosia vazia de racionalidade, agravaram-se com a crise financeira mundial. Mas o problema parece generalizado internacionalmente, o que não admira, dados os maus efeitos da globalização.

Esta crise nasceu de um sistema internacional condenado ao fracasso, da liberdade incondicional do poder financeiro e económico, sem supervisão, sem controlo e sem responsabilização por erros graves contra a estabilidade e sustentabilidade, com prejuízo para toda a humanidade em geral, particularmente, para os que vivem no limiar da pobreza e que não podem perder o pouco que já não tinham.

A bolha especulativa e de exploração de lucros por qualquer meio, com prejuízo fosse de quem fosse, rebentou e, para espanto dos mais optimistas, em vez de dar lugar a um esforço de reparação dos erros estruturais existentes e que estiveram na causa do desastre, tem originado um reforço do sistema, recuperando as perdas dos grandes financeiros, reabilitando indústrias que o próprio mercado vinha condenando ao seu ocaso, como o excesso de bancos e a indústria automóvel, inimigo perigoso da poluição e das alterações climáticas, em prejuízo dos consumidores, dos menos protegidos pelo Estado, das pequenas empresas, da agricultura, das pescas, e das produções que garantam a subsistência nacional e regional das respectivas populações.

Perante a crise, os governos evidenciaram a sua impreparação, incompetência, dedicação à sua função de Governar e falta de vistas largas e de capacidade de decisão e, por isso, acentuaram a parte mais negativa da globalização, em vez de aproveitarem o que ela tem de positivo para construir um novo sistema isento dos defeitos daquele que originou a crise internacional.

A nível nacional, corre-se insensatamente para obras megalómanas, sem olhar a custos, aumentando o endividamento externo, sem previsão da capacidade de amortização dos custos iniciais, sem olhar para a possibilidade de exploração rentável, sustentável, acabando por fazer cair nas gerações futuras um fardo insuportável, por mero capricho do poder que as antecedeu.

Paralelamente, assiste-se à degradação dos valores, do civismo do respeito pelas pessoas, individual e colectivamente. Na AR todos os políticos sem hesitações adjectivam os seus opostos de mentirosos e desonestos intelectualmente, evita-se combater a corrupção e o enriquecimento ilícito, aprova-se por unanimidade uma lei de financiamento dos partidos com dinheiro verde sem cuidarem do perigo de abrir caminho para um sistema estatal de lavagem de dinheiro proveniente das piores actividades criminosas.

Sintomaticamente, tal unanimidade nunca foi obtida em assuntos de interesse geral em defesa dos interesses nacionais no sentido mais lato. Ainda agora, para exemplo, não houve unanimidade em criminalizar a utilização de animais em lutas de espectáculo e apostas. Ignora-se quais os grandes interesses que estarão por detrás deste negócio que levou os partidos a não se unirem, como o fizeram no problema do «dinheiro vivo».

E perante estes dislates, o povo deixou de respeitar os políticos seguindo o exemplo que recebem das «touradas» na AR, das acções de «malhar» referidas na Comunicação Social e nas declarações á imprensa pelos políticos que desfrutam de maior visibilidade as quais desmascaram aquilo que realmente os preocupa. E o que os preocupa prioritariamente não são os grandes problemas de Portugal que eles raramente tentam definir ou sequer referir, mas a conquista de votos, de regalias de «tachos» para os seus «boys». A campanha para as recentes eleições para o PE foi um exemplo elucidativo. Atiraram-se as piores ofensas aos outros partidos mas nada se falou da importância da UE para Portugal ou de Portugal para a UE ou desta para o mundo e o futuro da humanidade. Não houve ideias tácticas e muito menos estratégicas, no que foi exímio o cabeça-de-lista do partido governamental.

Fica provado, e a última sessão na AR tirou qualquer dúvida que ainda existisse, que os interesses nacionais não são encarados a sério e que os governantes não têm a maturidade que seria desejável para as funções. Há quem defenda a entrega do Poder a jovens mais puros de sentimentos e intenções, mas há quem a receie por falta de experiência política. Mas, na realidade, tal experiência não significa mais do que estarem cristalizados nos vícios e manhas de que os actuais eleitos padecem. Com tais experiências nada melhorará. Terá de haver uma rotura de procedimentos, de metodologia na equação dos problemas com os olhos postos em interesses e objectivos nacionais acima de egoísmos e ambições sem ética.

Com os recursos humanos actualmente no activo, pessoas com cerca de 40 anos já viciadas nas maleitas existentes não iremos longe e só podemos alimentar esperanças de que de entre os agora ainda crianças surja uma elite com capacidade de organização e de concretização que consiga dar um novo rumo à humanidade, sem grandes sofrimentos. Para isso a juventude necessitaria de uma Educação adequada às grandes tarefas a que está destinada. Mas esse aspecto também está muito descurado. Toda a mudança obriga a sacrifícios de hábitos e de rotinas, bem como de alteração da escala de valores. Mas, realmente, a humanidade, em geral, não só o nosso País, está a precisar de uma correcção da rota para evitar o abismo irremediável, tendo de enfrentar as dificuldades inerentes.

A minha esperança de um futuro mais promissor não é em interesse pessoal, porque o prazo que prevejo, já não me trará benefícios pessoais. Penso na humanidade como se estivesse a olhar de um outro planeta e, dessa forma, procuro não me deixar prender por casos isolados, mas sim por tendências gerais ou erros com efeitos alargados que ultrapassam a área local.

Por outro lado, a esperança é o antídoto da depressão e da angústia, uma espécie de higiene mental que ajuda a viver em equilíbrio, perante o cenário de grave desagregação ética e social.

Mas esta esperança utópica tem bases reais. A Natureza funciona segundo o movimento sinusoidal com descidas e subidas, altos e baixos. As estações do ano são um belo exemplo disso. Na primavera nascem as folhas às árvores, depois as flores e os frutos e, no outono amarelecem e começam a cair, para no inverno as árvores ficarem nuas. Depois tudo recomeça.

O nosso planeta teve épocas glaciares, diluvianas, etc. Agora estamos em época seca e quente. A humanidade também tem passado por fases e não é necessário recuarmos à pré-história, pois basta irmos à época dos descobrimentos em que Portugal foi dono dos mares, sendo depois substituído pelos ingleses, e em parte pelos holandeses, franceses, belgas e os espanhóis com quem se partilhou a América do Sul. Todos recolheram ao espaço inicial deixando as colónias em liberdade.

A China foi o Império do Meio, com todo o mundo à sua volta. Depois a Europa liderou o chamado mundo ocidental, «cargo» que depois passou a ser desempenhado pela América do Norte. Nada permanece imutável e há na Natureza um regresso periódico a situações anteriores. Como o homem é o único ser vivo que constrói ferramentas e aperfeiçoa tecnologias não deixará que algo venha a ser igual a ontem, mas isso nem sempre é vantajoso, porque as próprias tecnologias começam a dificultar ser controladas pelo homem. A propósito da queda do avião em viagem entre Rio de Janeiro e Paris, houve técnicos que afirmavam que o sistema do avião é de tal forma perfeito que se auto-repara sem necessidade de intervenção do piloto. Mas se este vir que a coisa não corre bem, tem dificuldade, muitas vezes impossibilidade, de intervir. Passamos a ser sequestrados, vítimas indefesas da máquina.

Mas, quanto a uma evolução da vida social e política, a esperança não pode ser alimentada pela observação da generalidade dos jovens que têm crescido no ambiente doentio que lhes foi legado pela geração anterior; temos que esperar que, de entre eles, surja uma elite de «génios» que usem o raciocínio, concluam que muita coisa está errada e que é indispensável regenerar o sistema para que o Homem continue na Terra, e que tenham coragem de organizar e levar a cabo a mudança. A revolução francesa surgiu assim, a independência americana também.

O ideal seria que tudo se conseguisse com as palavras dos filósofos sem violência, mas, provavelmente, terá de haver violência para desalojar os actuais donos da humanidade (políticos, banqueiros, multinacionais e outros capitalistas exploradores que estiveram na origem da actual crise financeira global). Mas a violência por vezes, apesar de sofrimento, traz benefício, porque é sucedida de clarificação e concentração de esforços para objectivos claros. A Alemanha depois de ter ficado destruída pela II GM, foi bem sucedida no rápido trabalho de reconstrução e tornou-se depressa na locomotiva da Europa. Pelo contrário, Portugal, com os seus brandos costumes, não teve violência mas, em vez de reconstrução da Democracia, gerou o PREC cujos maus efeitos ainda se reflectem no caos em que vegetamos. Enfim, irá haver mudanças, sem sabermos quando nem como, mas a esperança em dias melhores para os nossos netos não deve desaparecer!!!

Efectivamente, tudo leva a crer que o mundo irá sofrer profundas alterações que, provavelmente, serão violentas. Há quem preveja que a hegemonia irá deixar de pertencer à América e passar para o Extremo Oriente (China). A Europa que, durante séculos, foi o centro da humanidade, irá perder essa regalia, esmagada por imigrantes, na maior parte vindos do Norte de África onde não há ocupação laboral para a população crescente. Os muçulmanos irão criar agitação com o Ocidente, embora não tenham organização para dominar a civilização, mas o petróleo continuará a dar-lhes alguma força por mais uns anos.

A esperança num futuro melhor é a última coisa a morrer. Mas é preciso alimentá-la. E é isso que estou aqui a fazer, procurando contribuir com a minha quota-parte para uma humanidade mais feliz e próspera, apesar das infantilidades de políticos sem formação ética.

A. João Soares

Pensar antes de decidir

(Publicado no blogue Do Miradouro em 4 de Dezembro de 2008)

O pensamento estruturado, metódico, deve preceder a decisão e a acção. Já por várias vezes foi aqui referida a necessidade de estudo dos problemas antes de ser tomada uma decisão. Por exemplo, o post de 6 de Janeiro do corrente ano, Não existe mentalidade de planeamento nos serviços públicos abordava este problema e, posteriormente, num comentário, ficou exposta uma metodologia que, adaptada a cada situação, pode dar uma forte ajuda e que é a seguinte:

Em termos resumidos, as normas de preparação da decisão e deplaneamento devem passar por

1) definir com clareza e de forma que ninguém tenha dúvidas, o objectivo ou resultado pretendido.

2) Em seguida, descrever com rigor o ponto de partida, isto é, a situação vigente, com análise de todos os factores que possam influenciar o problema que se pretende resolver.

3) Depois, esboçar todas as possíveis formas ou soluções de resolver o problema para atingir o resultado, a finalidade, o objectivo ou alvo; nestas modalidades não deve se preterida nenhuma, por menos adequada que pareça.

4) A seguir, pega-se nas modalidades, uma por uma e fazem-se reagir com os factores referidos em 2) e verificam-se as vantagens e inconvenientes; é um trabalho de previsão de como as coisas iriam passar-se se essa fosse a modalidade escolhida.

5) Depois desta análise das modalidades, uma por uma, faz-se a comparação entre elas, das suas vantagens e inconvenientes, com vista a tornar possível a escolha.

6) O responsável pela equipa, o chefe do serviço, da instituição, o ministro, o primeiro-ministro, conforme o nível em que tudo isto se passa, toma a sua decisão, isto é, escolhe a modalidade a pôr em execução, tendo em conta aquilo que ficou exposto na alínea anterior.

7)Depois de tomada a decisão, há que organizar os recursos necessários à acção, elaborar o planeamento e programar as tarefas.

8)Após iniciada a acção é indispensável o controlo eficaz do qual pode resultar a necessidade de ajustamentos, para cuja decisão deve ser utilizada a metodologia aqui definida, por forma a não se perder a directriz que conduz à finalidade inicialmente pretendida.

As várias insistências neste tema, são agora «premiadas» pela notícia do Jornal de Notícias Daniel Bessa: Governo deve "parar para pensar" de que se extraem algumas ideias:

O Governo deve dirigir o grosso dos investimentos para as exportações, em prejuízo das grandes obras públicas que vêm sendo anunciadas.

O país importa muito mais do que exporta e a diferença equivale a 10% do Produto Interno Bruto (PIB), o que o obriga a sobre-endividar-se no estrangeiro, para pagar aquela factura. Há 17 mil milhões de euros, por ano, que "saem mesmo da Banca portuguesa" e vão direitos aos bancos estrangeiros.

No actual contexto de recessão internacional, que parece resolvido o défice de confiança dos cidadãos nos bancos, mas não o da confiança entre bancos, sobretudo, de países diferentes. "Os [movimentos] interbancários continuam em muito mau estado".

A garantia de 20 mil milhões que o Governo deu à banca nacional foi uma boa medida, para esta conseguir dinheiro emprestado no estrangeiro, mas frisou que ela não dura para sempre e, em breve, "teremos de ouvir mais notícias do Estado português"...

Considerou ser "tempo de olhar para as debilidades estruturais", e defendeu que a economia portuguesa só ultrapassará a crise, se conseguir diminuir o défice das transacções correntes. "Precisamos, como de pão para a boca, de pôr dinheiro em coisas que exportem".

"O nó górdio desta crise continua no sistema financeiro". O antigo ministro começara justamente por observar que a actual crise "é diferente das outras", porque "deixou a própria banca em condições de não se poder financiar", para concluir que, "se o dinheiro não circular no sistema financeiro, a crise não se resolve".

NOTA: Estamos numa situação difícil que não se compadece com pequenos remendos, nem paliativos. É preciso um estudo imparcial, isento, competente, sem preconceitos partidários, com dedicação aos verdadeiros interesses nacionais, com vista a encontrar a solução estrutural que vá ao encontro de um Portugal que seja melhor amanhã e que possa continuar a desenvolver-se no futuro.

Memória de 13 de Junho de 1974

(Publicado no blogue Do Miradouro em 13 de Junho de 2009)

À hora marcada, estava no aeroporto da Portela para me juntar a um pequeno grupo que ia partir para Londres onde iria ter lugar um encontro entre representantes do poder Português com o PAIGC (Partido Africano Para a Independência da Guiné e Cabo Verde).Fazia-me acompanhar de uma volumosa pasta com dossiês relativos ao dispositivo militar na Guiné que foi preparado meticulosamente a fim de poder ajudar os futuros elementos armados da Guiné a substituírem os nossos militares nos diversos pontos do território, por forma a manterem a ordem sem sobressaltos e prepararem um futuro promissor para as diversas etnias que iam passar a ter uma autonomia responsável.

Fui nomeado pelo governador Carlos Fabião depois de ter ouvido o meu chefe directo que me consideraram o elemento do Comando Chefe com mais informação para o efeito desejado.
No aeroporto encontrei-me com o Manuel Monge, hoje general, e pouco depois chegaram Mário Soares, Almeida Santos e Jorge Campinos. Já todos conheciam o Monge. No entanto, Mário Soares, perguntou quem era o João Soares (por exclusão de partes não lhe era difícil saber que era eu) e disse que o filho também se chama João Soares. Foi uma forma simpática de me introduzir no grupo. E informou que a reunião não seria em Londres porque o PAIGC tinha dito que não se sentia à vontade para discutir o assunto em casa de um nosso aliado e tinha proposto a Argélia, o que Portugal aceitara. De maneira que íamos tomar um avião para a Argélia via Paris.

Chegados lá instalámo-nos numa moradia e foi-nos oferecido chá de menta e tâmaras à discrição, além de comodidades muito aceitáveis. Tínhamos sido alertados para a hipóteses de as conversas serem escutadas e gravadas, pelo que ou falávamos no jardim relvado distantes dos canteiros ou à volta de uma mesa em cujo centro colocávamos um rádio que empastelava as nossas vozes em eventual gravação.

No dia seguinte tivemos o encontro e as conversas bilaterais em que o PAIGC era representado por um grupo do tamanho do nosso, sob a chefia de Pedro Pires.

Estou agora a recordar isto e a escrever pela primeira vez, porque é o aniversário desse evento e porque as notícias recentes mostraram, mais uma vez, que a Guiné não soube ou não conseguiu aproveitar da melhor forma a oportunidade de ser um País independente capaz de se governar para bem-estar do seu povo e desenvolvimento das suas potencialidades que, diga-se a verdade, não eram muito promissoras. Mas houve um pormenor que na altura me impressionou e agora recordo com vontade de não o manter no sufoco.

Nas conversações quem falava era Pedro Pires de um lado e Mário Soares do outro (nosso) com pequeníssimas intervenções de Almeida Santos e Jorge Campinos. A dada altura, Pedro Pires na sua arenga contra a repressão dos militares portugueses (o que não podia surpreender, porque era esse o papel que ali estava a representar) falou nos campos de concentração em que tinha sido colocada grande parte da população guineense. O Monge deu-me um toque de joelho e trocámos um olhar de espanto por não ter havido reacção de Mário Soares e, de forma discreta, dissemos que no intervalo íamos chamar-lhe a atenção por ele não ter reagido.

Chegados ao intervalo e após o primeiro gole de chá de menta, mostrámos-lhe o nosso espanto por ele ter deixado sem esclarecimento essa alusão, feita de forma despropositada e hostil, aos aldeamentos construídos quase no estilo de aldeias turísticas dos nossos tempos, com água, proximidade dos campos de cultivo em locais escolhidos pelas pessoas importantes da aldeia (homens grandes) e que muito nos impressionava que os soldados que as construíam, que viviam nas suas aldeias do interior do País com a família em péssimas condições em comparação com aquelas, trabalhavam sem refilarem nem exigirem nada de semelhante para as suas aldeias. Aceitavam o seu espírito de missão sem qualquer sombra de ressentimento, tal fora a sua preparação militar.

Mas Mário Soares que conhecia a Guiné apenas através dos programas que a oposição fazia publicar na Rádio Moscovo, na Rádio Argel, na Rádio Praga e outras, não conhecia minimamente o produto que estava a «vender» ou a dar e não podia dialogar com o «comprador» ou aceitador. E argumentou, como motivo para não ter reagido à alusão a «campos de concentração», a existência do arame farpado que cercava os aldeamentos. Foi-lhe explicado que a única razão era dar alguma protecção aos habitantes contra os roubos dos seus haveres pelos combatentes africanos ocultos no mato na região e que fora pedido pelos «homens grandes» do aldeamento. Limitou-se a dizer «porque não me disseram isso antes?». Para o que não podia haver resposta, pois o desejado «briefing» prévio devia ter sido determinado por ele.

Regressado, a Lisboa voltei a Bissau com a pasta pesada com os dossiês intactos sem terem sido sequer referidos, frustrado pela inutilidade do esforço e pelo amadorismo das «conversações», fiz o relatório ao Governador Carlos Fabião e sugeri que nomeasse outro seu delegado para as novas rondas das conversações, pois não estava interessado em continuar. Veio a ser nomeado Hugo dos Santos, agora general. Pouco depois terminava os dois anos de serviço ali e, apesar disso e de ter regressado definitivamente a Lisboa, ainda lá fui algumas vezes a pedido do governador que depositava em mim confiança para alguns contactos com as altas esferas militares.

Concordo que a descolonização foi feita sob pressões anormais e irracionais, mas devia haver coragem para parar e pensar na melhor forma de garantir o futuro das populações locais, de maneira a não perderem os efeitos positivos do bom que existia e poderem desenvolver todas as hipóteses de melhorar. Não houve a serenidade e o bom senso necessários, não tinha havido preparação de pessoas válidas para o enquadramento da vida social e económica, nem segurança para agirem da forma mais correcta, e depois foi o que se tem visto, até aos nossos dias, passados 35 anos.

A República da Guiné Bissau não começou com os melhores augúrios e tropeçou ao dar os primeiros passos. Oxalá, agora após 35 anos, haja sensatez para recuperarem o bom rumo e superarem da melhor maneira os sofrimentos de todo este tempo.

Eficiência na comunicação

(Publicado no blogue Do Miradouro em 28 de Março de 2009)

Usando do diálogo que a Internet possibilita, alinho estas frases após ter sido estimulado a «escrever bem» pela escritora Alexandra Caracol através do texto que inseriu no seu blogue e que aqui deixo entre aspas. Escrever ou falar bem é indispensável no acto da comunicação com o outros. Ao comunicar, estamos a desempenhar o papel do carteiro em relação à ideia que pretendemos levar, comunicar, ao outro. Ao transmitirmos uma ideia, não basta ficarmos satisfeitos pela forma como o fizemos, mas devemos imaginarmo-nos na pele do receptor e avaliarmos a facilidade de ele extrair do texto a ideia que com este quisemos enviar. Para a comunicação ser eficaz, sem deturpar a mensagem, há que utilizar uma linguagem comum, com palavras de significado bem conhecido tanto pelo emissor como pelo receptor. Este conceito fica bem evidente quando a comunicação é cifrada, o que obriga a que os dois intervenientes usem a mesma chave para codificar e descodificar.

Para bem escrever é preciso conhecer bem a língua utilizada, a sua gramática e a força das palavras. Mas antes de alinhar as palavras e as frases, é imprescindível clarificar a ideia, isto é, PENSAR, raciocinar, o que hoje é um luxo pertencente a muito poucos. Os próprios governantes, caiem em contradições e incoerências frequentes, por não saberem raciocinar sobre os dados por eles próprios anteriormente estabelecidos. Há que racionalizar o encadeamento das afirmações e dos considerandos que a suportam, procurando a maior clareza do pensamento e a sucessão dos argumentos para ser fácil ao receptor ficar de posse completa da ideia que lhe foi entregue. Já me aconteceu ver textos meus preparados com grande dose de ironia serem interpretados em sentido oposto ao desejado por a ironia não ter sido apercebida por alguns leitores.

Cada um de nós tem de procurar a excelência em todos os seus actos e ajudar os seus familiares e amigos a fazerem igual esforço. Não somos obrigados a morrer ignorantes nem incapazes de falar e escrever bem. Expor de forma correcta um tema, conduz-nos a um melhor conhecimento, em consequência do esforço de raciocínio para preparar a exposição, o que evidencia a interacção entre os dois momentos.

A comunicação e a escrita aprendem-se. Noutros tempos, as escolas, os professores de Português incitavam os alunos a escrever bem sobre temas, uns impostos e outros livres. Tive um professor que nos mandava fazer resumos de partes dos Lusíadas e outras obras e, todas as semanas, fazíamos uma redacção sobre «o caso da semana» e, na segunda-feira, eram chamados uns tantos para lerem o seu trabalho e todos fazíamos a seguir a crítica. Também as publicações tinham concursos de contos e outras redacções dando prémios simbólicos aos melhores. Hoje, impera o facilitismo, com a ideia de que o que é preciso é que nos façamos entender. Só que muitas vezes não se entende e faz-se uma interpretação errada, como é o caso de muitos contratos, de que resultam problemas.

Actualmente, o computador veio dar uma grande ajuda à escrita. Aquela frase que veio à mente quase no fim do texto é facilmente inserida a meio ou no início, no local onde melhor se enquadre na estrutura do texto, não havendo, por isso, desculpa para o ziguezague do percurso em que se repete um aspecto ou se avança e recua no fluir da expressão.

Saber escrever, saber comunicar, aprende-se e incrementa-se com o estudo, a experiência e a análise de bons textos. A divisão das orações (A TLEBS que me desculpe se o termo já não é este) constitui um teste essencial para verificarmos se uma frase está correcta.

Nota: este texto foi escrito em 3 de Dezembro de 2006, mas mantém-se actual, excepto na referência à TLEBS.

domingo, 16 de agosto de 2009

Mais vale prevenir do que remediar. 030819

(Publicada em «A Capital», 2003.08.19, pág. 15)

À primeira vista, parece que já demasiadas pessoas emitiram opinião sobre o drama dos fogos florestais. Porém, julgo que não é demais insistir no problema, a fim de que a actual situação emocional não se extinga antes de serem tomadas decisões práticas e exequíveis. Embora hoje as conversas se foquem nos crimes de fogo posto, parece que o objectivo principal deve ser voltado para o futuro, deve versar a adopção de medidas de prevenção que venham a impedir que qualquer fogo, de qualquer origem, se expanda por áreas incontroladas.

Se, com as próximas chuvas, deixar de se falar na reestruturação e manutenção da floresta, certamente que, no próximo ano, arderá tudo aquilo que este ano escapou. Por isso, é absolutamente necessário que não se deixe de falar nisto, alertando os responsáveis para a urgência do problema, o qual não pode deixar-se secundarizar com qualquer caso que entretanto surja.

Permito-me esboçar duas reflexões que julgo significativas. A primeira refere-se à limpeza das matas. Há quem faça comparações com o que sucedia há cinco ou mais décadas. Mas, efectivamente, não há comparação possível. Nessas datas, as matas estavam limpas, por vezes em exagero, porque todo o material delas retirado era útil para a vida das populações rurais e para as tarefas agrícolas. Ninguém tinha como objectivo limpar as matas; estas resultavam limpas por efeito do aproveitamento da «esgalha» dos pinheiros, da roça do mato e da apanha da caruma.

Hoje, para se conseguir ter as matas limpas seria necessária mão-de-obra, que não existe (apesar da taxa de desemprego!), seriam necessárias máquinas que teriam o inconveniente de impedir o crescimento dos pinheiros acabados de nascer. E, depois, qual o destino dos produtos resultantes da limpeza? Se forem deixados em medas, constituem bombas incendiárias. Outra pergunta será: onde irão os pequenos proprietários, muitas vezes idosos, com pensões de miséria, buscar dinheiro para pagarem essas limpezas? Fica, pois, a pergunta de resposta difícil: deve ou não fazer-se a limpeza das matas?

Uma segunda reflexão, que de certo modo responde à primeira, liga-se à compartimentação da floresta por aceiros largos e mantidos perfeitamente limpos, à alternância de faixas de árvores folhosas, com outras de pinheiros e de eucaliptos, com pastagens, e aos acessos fáceis a todos locais, etc.

Estas actividades de reordenamento, nomeadamente a desflorestação dos aceiros, irá prejudicar principalmente os pequenos proprietários. No curto prazo, prejudica interesses privados. Mas trará benefícios no longo prazo, evitando os dramas deste Verão. As pessoas, quando esclarecidas, compreendem isto. As televisões mostraram no Algarve povoações que escaparam aos fogos porque, à última hora, limparam os terrenos à volta e abriram aceiros e clareiras sem olhar aos limites das propriedades, aos jardins aos quintais e aos pomares. Ninguém se opôs, como é lógico. Porém, se alguém lhes tivesse sugerido tais trabalhos, uma ou duas emanas antes, estou certo que ninguém deixaria que as máquinas destruíssem as suas propriedades!!

Há, pois, que esclarecer as pessoas e os responsáveis para se colocarem de acordo na compartimentação da floresta, com as justas indemnizações aos proprietários de pequenos terrenos engolidos pelos aceiros. Isso seria um investimento que evitaria os prejuízos que hoje se conhecem.

Depois de calculados os custos dos prejuízos sofridos com os fogos deste Verão deveria contar-se com mais 20 ou 30 por cento para gastar em trabalhos de prevenção, como atrás ficou referido. Se assim não for, o muito que se poupe e deixe de se gastar na prevenção será, certamente, ultrapassado pelos prejuízos dos fogos que virão a ocorrer. A lição deste Verão não deve ser esquecida. Prevenir é investir para o futuro, é sacrificar os interesses individuais de hoje em benefício dos interesses colectivos de amanhã. Vale mais prevenir do que remediar. Isto não significa, porém, que não se aperfeiçoem as condições, os meios materiais e as pessoas para o combate aos focos de incêndio que possam ocorrer.