sexta-feira, 16 de agosto de 2019

GREVES POLÍTICAS?

Greves políticas?
(Publicado em (O DIABO nº 2224 de 16-08-2019, pág 16)

Nos últimos anos, têm sido noticiadas, e sentidos os seus piores efeitos, greves nos mais diversos sectores públicos, inclusivamente num dos três poderes da soberania, o Poder Judicial.

Por definição, “greve é a cessação colectiva e voluntária do trabalho realizado por trabalhadores com o propósito de obter direitos ou benefícios, como aumento de salário, melhoria de condições de trabalho ou direitos laborais, ou para evitar a perda de benefícios”. Portanto, o direito à greve deve ser uma ferramenta da luta entre trabalhadores e seus patrões, sempre que não conseguirem acordo através de conversações amigáveis. Mas não é aceitável nem justo, no caso de serviços públicos como saúde, transportes, ensino e outros, que, por interesse de poucos, se causem sacrifícios e prejuízos a todos os cidadãos que sejam utentes ou clientes de tais serviços públicos, que existem para servir a população.

Tem sido tolerado pelo Governo que pessoas morram por falta de cirurgias ou outros tratamentos urgentes que deviam ter sido efectuados com oportunidade, que outras pessoas faltem aos empregos ou cheguem muito atrasadas, devido a greve do transporte que habitualmente utilizam. Se há desentendimento entre trabalhadores e patrões de serviços ou de empresas, não é justo que sejam prejudicadas pessoas que são apenas utentes e clientes e não têm culpa de irregularidades que existam entre patrões e empregados, nem têm possibilidade de contribuir para solucionar tais diferendos.

Para isso, os trabalhadores, além do diálogo ou negociação, dispõem da greve de zelo que em nada prejudica utentes e clientes e até os pode beneficiar. Apenas visam a administração do serviço ou empresa que, além de receber menos, tem mais despesas pelas exigências de melhores condições de trabalho e insatisfação no serviço, incitando a exigências que antes eram toleradas.

Como se nota que, na vida pública actual, tudo o que acontece tem uma intenção inconfessada na luta interpartidária e hoje estão na berra novas teorias sociais, demasiado fantasiosas e desajustadas das tradicionais, não deve ser posta de lado a hipótese de pressão de oposicionistas que, manipulando os sindicatos, procurem prejudicar e criar mal-estar na imagem do Governo frente às próximas eleições. Perante isso, o Governo deve, nos serviços públicos favorecer o relacionamento entre os diferentes graus de funcionários, criando harmonia que gere esperança de breve aumento da justiça social e da equidade, reduzindo o leque salarial, em muitos casos demasiado injusto e irritante.

Com a exagerada prioridade que muitas teorias recentes dão aos direitos, em detrimento dos deveres, nesta época em que o tema mais falado é o da greve dos motoristas dos transportes de matérias perigosas, aparecem umas virgens míopes que defendem os grevistas com termos como estes “eu digo Força Motoristas, estivadores e outros camionistas e povo em geral unam-se numa só voz... mostrem a esta corja de ladrões e corruptos que quem manda na Nação ainda é o povo...”. Pobre povo, dependente desta gente.

Mas a realidade no sector laboral leva a considerar urgente a revisão da situação de muitos trabalhadores que funcionam como autênticos escravos que, com o seu trabalho pago apenas com o salário mínimo, alimentam empresas com bons lucros pagando desproporcionadamente a gestores, incluindo prémios de desempenho em anos em que os lucros “fiscais” foram mínimos ou mesmo negativos. A ética recomenda mais justiça social e menos discrepância salarial e que entre os vários degraus haja melhor relacionamento, até para fins didácticos, melhorando a eficiência dos menos aptos.

Quanto à substituição da greve por soluções que não afectem a população, há a solução do Movimento Zero de agentes da Segurança Pública que aqui foi referida e a atitude do CEMGFA perante o MDN.

sábado, 10 de agosto de 2019

FOGOS INEVITÁVEIS?

Fogos inevitáveis?

(Publicado no DIABO nº 2223 de 09-08-2019, pág 16)



Em 2017, após os incêndios florestais de Pedrógão Grande que alastraram por enorme área onde causaram imensos prejuízos em instalações de habitação e agrícolas e em terrenos cultivados, bem como perdas de vidas, o Governo, através de palavras muito sonoras e largamente repetidas, criou na população a convicção de que não voltaria a sofrer efeitos de tragédias semelhantes.



Mas passados dois anos houve, além de outros, o caso de Mação, que abrangeu uma área assustadora, o que nos faz interrogar sobre as medidas concretas resultantes das intenções governamentais prometidas pelas palavras de esperança tão badaladas. Mas de tais promessas começou por se ver uma medida legal tão inadequada que teve de ser alterada nos prazos muito curtos que impunha para a limpeza nas vizinhanças de habitações e de povoações. Mas, apesar de terem surgido nos jornais opiniões de técnicos conceituados para se fazer uma reestruturação da floresta por forma a circunscrever a área de cada incêndio e outras medidas concretas já aplicadas noutras áreas próximas da nossa fronteira, o Governo teimou nas suas ideias e a intenção não faz milagres. Não se lembrou que seria útil pedir a colaboração de técnicos competentes para uma reunião de análise a fim de ser decidida uma solução, com pés e cabeça.



Acerca do fracasso da prevenção prometida, o Sr. Ministro da Administração Interna devia explicar as medidas que tomou para prevenir incêndios tão dramáticos. Quais as razões por que não foram eficazes para evitar os incêndios de agora? Porque não foram tomadas medidas melhores? Possivelmente, alguns dos seus colaboradores deram lhe um apoio menos conveniente ou pressionaram a adopção de medidas ineficazes? Que colaboradores despediu por o não terem ajudado a ter êxito?... Mas a fantochada continua. E a responsabilidade é toda atribuída ao povo que atura, sem reagir de forma eficaz e definitiva, os que agem em nome do governo.



E, na denominada limpeza da floresta, por melhor que se rape toda a vegetação rasteira, a Primavera seguinte faz cobrir o terreno de nova camada vegetal que seca no Verão, ficando pronta para as criminosas intenções de pirómanos a mando de bandidos com capacidade para lhes pagar. E, perante os pirómanos, havia que preparar a Justiça para aplicar penas que desencorajassem novos incendiários e seus apoiantes.



E, na limpeza das matas, é preciso bom senso e cautela para não destruir miniaturas de futuras grandes árvores, a fim de não transformar o interior num extenso campo desportivo para golf, futebol, etc. Limpeza radical dessa forma deve ser reservada aos aceiros que transformem as encostas numa quadrícula que impede fogos extensos e que tem sido sugerida em escritos de vários técnicos, atrás referidos.



Outra medida muito estranha, ainda não explicada, foi a aquisição de 70 mil golas compradas pela Protecção Civil não para usar em protecção individual, em incêndios, mas para sensibilização de boas práticas, mas que foram comprados com tal urgência que, sendo o “valor de mercado de 74 cêntimos cada”, o Jornal de Notícias garante que o Estado “deu 1,80 euros” na compra feita a marido de autarca do PS.



Com a anunciada subida de temperatura e a relacionada alteração climática, o País ficará transformado num monte de cinzas e de destroços, em pouco tempo, se não forem utilizados processos eficazes de detecção e de combate rápido. Há poucos anos, conheci um jovem que esteve em Barcelona a tirar um curso de pós-graduação e que, na tese, apresentou um sistema de detecção de um fósforo aceso, comunicada automaticamente aos bombeiros os quais accionam o carro de prevenção que, com pouca água, apaga a chama antes de ela se propagar. Em pontos altos bem escolhidos do terreno, montam postes com sensor que indica a direcção da chama e, por triangulação, dão aos bombeiros o seu local exacto para a eliminar. O custo disto resulta da quantidade de postes a instalar e dos aparelhos de detecção e de comunicação por satélite. ■


domingo, 4 de agosto de 2019

FOGOS FLORESTAIS OU IRRACIONALIDADE POLÍTICA



Fogos florestais ou irracionalidade política

Havia um corpo de Guarda Florestal que foi extinto por políticos de reduzida compreensão das realidades e sem preocupação com o futuro, isto é, sem visão estratégica. Quando a GF existia, podia haver mentes não esclarecidas sobre as realidades do interior que a consideravam desnecessária mas, no momento em que foi extinta, já se estava num processo de mudança da vida rural e os detentores do poder tinham obrigação de pensar nos dias do porvir, pois já eram visíveis as alterações que se anunciavam na agricultura. Daí a necessidade de uma maior vigilância da área florestal por forma a ser exercido um esforço sistemático de prevenção de incêndios e de rápida acção de combate de algum que surgisse. Além da detecção oportuna de incendiários.

Da minha vida durante mais de 18 anos na zona do pinhal, nunca vi um fogo. E a razão derivava de a agricultura precisar de limpar sistematicamente o pinhal para apanhar a caruma para a cama do gado e o mato para curtir para ser utilizado como adubo das terras, os pinheiros eram aparados para dar madeira para segurar as videiras, o feijão, as ervilhas e os tomates e para lenha para a lareira e o forno do pão. Com isso, obtinha-se uma limpeza tal que, durante os trabalhos na mata, não era necessário muito cuidado para acender uma fogueira para preparar o almoço. Depois, a evolução criou materiais para segurar as videiras, as ervilhas, o feijão etc, e deixou de ser necessário aparar as hastes dos pinheiros. Estas também deixaram de ser utilizadas como lenha da lareira, por haver fogões a gás. O forno do pão também deixou de usado como até aí. Também, o mato deixou de servir como fertilizante das terras por se passar a usar adubo. Também os bois deixaram de ser necessários para puxar a charrua, por passar a haver tractores, deixando de ser preciso o mato para as camas nos currais. E, assim, a mata passou a viver em paz sem a intervenção do homem que a limpava e, daí, a ocorrência de fogos impulsionados por madeireiros que pagam a pirómanos, etc.

Com esta mudança, é de lamentar a falta da Guarda florestal e a generalizada ignorância das condições em que vive o interior e dos cuidados de que este carece quanto a fogos e não só. E, para quem conhece o interior, é muito chocante ouvir os governantes dizer que não têm responsabilidade do que se passa no interior (a maior parte do território nacional), que a responsabilidade da prevenção é dos seus habitantes, etc. etc.

E fecham os olhos aos danos incalculáveis dos incêndios de Vila de Rei, Sertã e Mação, Tomar-Abrantes, Sabugal, etc ao ponto de haver um ministro com grande responsabilidade por omissão de medidas eficazes dizer «Época de incêndios ‘está a correr bem’». Não tenho palavras para exprimir a minha sensação ao ler isto no jornal. Tanta insensatez!!!



quinta-feira, 1 de agosto de 2019

MOVIMENTO ZERO

Movimento zero
(Publicado em O DIABO nº 2222 de 02.07.2019. pág 16)

A sociedade precisa de viver em segurança, paz e harmonia, o que não é totalmente possível, por haver pessoas subjugadas por egoísmo, ambição, inveja, ódio ou outras moléstias sociais. Para fazer face a tais maleitas, são indispensáveis forças de segurança que garantam a prevenção e a eliminação de ocorrências de comportamentos menos correctos. Tais agentes da ordem pública, devem ter preparação adequada para cumprirem a sua missão, por vezes difícil, mas sempre de vital importância para a população ordeira.

Por isso, os agentes são respeitados e acatados pelos cidadãos educados e apreciadores da sua acção socialmente benéfica. Os seus chefes, a todos os níveis, devem reconhecer o apreço que a população lhes dedica, pelo que devem dar ao pessoal activo a indispensável preparação e instrução para o, por vezes difícil, cumprimento da missão, por forma a daí resultar prestígio e respeito.

Em 10 de Julho, no Cacém, um jovem de 23 anos, com antecedentes criminosos, foi detido depois de ter agredido um agente da PSP que o tentava deter por ter sido chamado pela avó quando ele ameaçou a mãe com um martelo, tendo esta uma criança ao colo. Quando os agentes chegaram ao local, o rapaz mostrou-se violento. Insultou os polícias e ameaçou-os, chegando mesmo a agredir um deles antes de ser manietado e detido. O polícia agredido - que está na PSP há cerca de três anos - sofreu algumas escoriações num dos braços, mas não foi necessário receber tratamento hospitalar.

Também em 19 de Julho, por iniciativa do “Movimento Zero”, dezenas de polícias concentraram-se em frente ao Hospital de Braga, onde estava internado um comissário da PSP que tentara o suicídio com a arma de serviço, no seu gabinete na esquadra bracarense. A manifestação tinha o intuito de alertar para a falta de condições de trabalho na Polícia que, segundo afirmaram, desde o início do ano, já levou três agentes ao suicídio.

Infelizmente, ocorrem situações em que os mais altos responsáveis se alheiam das dificuldades do trabalho dos seus subordinados e os desprezam e desprestigiam, não lhes dando condições para o bom desempenho da missão, o que pode prejudicar a forma como o povo a acata e suporta. Mas chega a acontecer que o povo que muitos governantes consideram pacóvio, se levanta espontaneamente em manifestação de apoio aos agentes a quem devem paz e segurança pública e de quem esperam a continuação dessa garantia. Esta reacção do povo é significativa como ocorreu recentemente em Massamá, quando a associação de moradores se concentrou em frente da esquadra local da PSP a manifestar o seu apoio aos seus agentes, a condenar as agressões e ofensas de que são alvo e prometendo o seu auxílio concreto no terreno contra actos de marginais. “O povo é sereno” e sabe reagir de forma positiva e sensata, dando com isso aos governantes uma magistral lição.

~ Em sintonia, com o sentimento dos moradores de Massamá, nas Forças de Segurança (PSP e GNR) foi criado o “Movimento Zero”, no qual é zero o número de participantes que, no seu serviço, tenham tido qualquer acto menos correcto. Este pormenor dá-lhes direito a reclamar dos seus superiores adequadas condições de trabalho e correcta apreciação das suas actividades, como é o caso do uso de indispensável violência no tratamento de infractores, independentemente de etnia ou cor.

Assim se compreende que em 12 de Julho, na Praça do Império, em Lisboa, durante a comemoração dos 152 anos de PSP, agentes do Movimento Zero da PSP e militares da GNR, vestidos com camisolas brancas, manifestaram-se silenciosamente, voltando-se de costas quando o director nacional da PSP, Luís Farinha, começou a falar na cerimónia presidida pelo primeiro-ministro, António Costa, mantendo-se nessa posição até ao final do discurso. E, quando o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, começou a discursar, os polícias saíram em silêncio e de forma ordeira, levantando os braços e fazendo o gesto do zero com os dedos. ■


terça-feira, 30 de julho de 2019

TEMPESTADES DE GRANIZO

Tempestades de granizo

DIABO nº 2221 de 26-07-2019. Pág 16, Por António João Soares



Existe, actualmente, a obsessão de citar as alterações climáticas quando se deseja apenas referir os cuidados com a eliminação da poluição do ar, dos mares, dos rios e da área terrestre. Tive oportunidade de procurar contribuir para esclarecer o assunto no texto ‘Alteração climática é fenómeno natural’, publicado em O DIABO nº 2218, de 05-07-2019, pág 16. Depois disso, veio a notícia da saraivada ocorrida em Mogadouro do distrito de Bragança, em 13 de Julho corrente, provocando danos avultados principalmente na agricultura em vinhas, olivais e soutos, numa área alargada em vários pontos do concelho; e houve quem se referisse ao caso como se se tratasse de efeito de alteração climática.



Recordei-me de uma saraivada num mês de Maio da década de 1940 ocorrida na área circundante da minha aldeia, causando elevados estragos na agricultura, casas e pessoas, ao longo de uma larga faixa. Tive sorte, porque ocorreu poucos minutos depois de ter percorrido 7km a pé desde o Liceu. Esta vivência fez-me valorizar a notícia e soube que em 1 de Julho em Guadalajara, México, caiu uma saraivada que deixou uma camada de 2 m de gelo. No dia 11 caiu na praia de Tortoreto, Itália, granizo de grandes dimensões que provocou 18 feridos. Também nesse dia, o norte da Grécia foi atingido por forte tempestade de granizo que causou a morte de seis pessoas, incluindo duas crianças, e fazendo centenas de feridos.



Isto levou-me a procurar explicação para o fenómeno e fiquei sabendo que se trata de fenómenos naturais, que ocorrem em circunstâncias meteorológicas muito especiais, e que são objecto de estudo desde há séculos, principalmente depois de o seu poder destruidor ter intrigado o pensador grego Aristóteles que, no ano 340 AC, escreveu sobre eles na obra Meteorologia. A explicação actual traduz a convicção de que as tempestades de granizo, sobretudo as violentas e com pedras de grande tamanho, são fenómenos raros, que acontecem em circunstâncias meteorológicas excepcionais. Para se formarem estas nuvens especiais de granizo, é preciso que o ar esteja muito quente e húmido. Elas surgem entre 15 e 25 km de altitude, onde a temperatura não atinge os 80ºC. E que ventos fortes de direcção vertical entre 50 e 100 km/h que sopram para cima onde a temperatura é baixa e transforma a sua humidade em gelo, que, por ter maior densidade cai verticalmente, normalmente como chuva e, em condições especiais, como granizo.



Mas quando o ar está excessivamente quente e húmido, como aconteceu nos dias destas tempestades, grandes massas de ar cheias de vapor de água elevam-se na atmosfera puxadas por ventos tipo furacão, verticais, para grandes altitudes, chegando mesmo aos 25 Km. Logo a partir dos 5 Km (linha isotérmica), a temperatura fica abaixo de zero. E é a partir daí que o vapor passa a água e depois a gelo e, por ficar com mais densidade, consegue vencer o ar quente que o sopra para cima, e as pedras caem a grande velocidade e de forma destruidora. Os sucessivos movimentos de ventos muito velozes, quer na subida quer na descida, provocam o congelamento e descongelamento da água e a aglomeração de blocos de gelo que podem assumir volumes imprevisíveis. Um dos piores exemplos recentes de que há registo aconteceu em 1986, no Bangladesh, quando uma saraivada de pedras de gelo de cerca de um quilo fez 92 mortos.



Devido a esta sucessão do sentido do vento, das altitudes e das consequentes temperaturas, as tempestades de granizo nunca aconteceram nas regiões polares. E são mais frequentes no interior dos continentes, dentro de latitudes médias da Terra, nas regiões mais quentes e não muito distantes da zona inter-tropical. Será que os cientistas encontrarão na frequência do granizo, nos recentes abalos sísmicos e no aquecimento da água do mar, indícios de próxima alteração climática? ■


ARMADILHAS DO «POLITICAMENTE CORRECTO»

Armadilhas do “politicamente correcto”

DIABO nº 2219 de 12-07-2019, pág 16



O ensino das crianças tem início logo que o bébé nasce e começa a observar à sua volta e a pensar naquilo que vê, suas causas, efeitos e circunstâncias em que ocorre. Aquilo que vê fazer gera vontade de imitar ou de rejeitar. E as interferências da mãe, de outras pessoas de família ou de ama ou educadora complementam a aprendizagem e constituem, com sensibilidade adequada, prémio ou castigo de actos correctos ou errados. E, desta forma, os contactos com os mais crescidos, nas mais variadas circunstâncias, são fontes de aprendizagem.



A propósito, num dos almoços semanais, com amigos, recordei as aulas de um professor, pai de um deles, no ano lectivo de 1946-47, no Liceu Nacional Alves Martins (que, no ano seguinte foi substituído pelo novo Liceu Nacional de Viseu), ao lado de uma calçada muito inclinada em que, do lado oposto à janela da nossa turma, havia um ferrador que tratava do calçado (ferraduras) de cavalos dos clientes e que passava grande parte do tempo a martelar ‘pic-pic’ a ferradura, junto à forja, para a ajustar à forma e dimensão do casco. Um dia, a meio de uma aula, perante dois ou três alunos distraídos e a conversar, o professor chamou-lhes a atenção de forma didáctica e socialmente educativa, dizendo “está o ferrador a trabalhar continuamente ‘pic-pic’ e os meninos sem prestarem atenção ao colega que está no quadro a tentar resolver o problema”.



Aprendi que a observação da realidade que nos circunda e o pensamento acerca dela constituem um factor de aprendizagem e de cultura. E as palavras tinham lógica, foram coerentes com o momento e ditas de forma correcta e didáctica. A lição estava adequada à disciplina escolar e à formação de meninos que estavam a iniciar a vida e englobava a noção da prioridade merecida pelo assunto da lição e foi útil por mostrar que, na vida, devemos estar atentos a tudo o que se passa à nossa volta para sermos cidadãos responsáveis agindo de forma moralmente correcta. Passados mais de setenta anos ainda recordo positivamente esta lição simples mas eficaz.



E este pensamento não foi rememorado por acaso, mas porque, na conversa, foi referida a alusão do nosso PR, a um caso actual, em que reagiu por impulso e sem a devida análise e meditação ponderada, fazendo pressão limitativa sobre juízes italianos no julgamento de um jovem português que, talvez pouco esclarecido, esteve comprometido em acções de tráfego de pessoas, ao serviço de organização ligada à transferência de migrantes para a Europa, provavelmente às ordens de milionários internacionais que, com isso, pretenderiam desequilibrar a vida dos países europeus para fins de estratégia internacional não confessada.



Com o pretexto de que o português estivesse movido por fins humanitários de salvamento de pessoas em perigo de afogamento, o PR, sem procurar melhor informação, deixou-se arrastar para um acto que classificou de heroísmo, como “politicamente correcto”. Mas a realidade, baseada em testemunhos apoiados em várias fotos, mostra que, na maior parte dos casos, não chegou a haver perigo de vidas, mas apenas mudança de meio naval de pequenas embarcações pneumáticas, cujo combustível dava até ali, para embarcações de maior capacidade, onde estava o nosso “herói”, que ali estavam preparadas para esta transferência e levar os falsos “náufragos” a porto italiano.



Todos esses barcos estão controlados pelas ONG ao serviço de capitalista internacional que as financia e paga. Na origem, os traficantes de pessoas também recebem destas o pagamento da viagem. Este é um caso que exige boa investigação e não deve ser condenada à priori a posição do Governo Italiano nem o tribunal que age perante migração ilegal. Do outro lado estão ocultos interesses políticos e financeiros contra os direitos de pessoas que vêem ameaçada, por ingerência de estranhos, a sua cultura tradicional, a sua história, a sua religião, os seus hábitos, etc. ■