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segunda-feira, 30 de julho de 2018

SENSATEZ, LÓGICA E MÉTODO

Sensatez, lógica e método
(Publicado no Semanário O DIABO em 24 de Julho de 2018)

A vida real oferece lições que não devemos desperdiçar: casos como o dos rapazes bloqueados em gruta na Tailândia, o da crise do Sporting e a falhada tentativa de eliminar as touradas mostram que, ao decidir uma acção vistosa, é indispensável utilizar os ensinamentos da vida para a preparação da decisão. É conveniente não deixar de usar sensatez, uma finalidade bem ponderada, uma lógica assente na análise das vantagens e inconvenientes e uma estratégia correcta no percurso desde o ponto de partida até ao objectivo.

Ser lunático, utópico ou sonhador, é aceitável quando se é coerente consigo próprio, com a natureza e com um futuro melhor. Foi com base em sonhos lunáticos que se realizaram grandes passos em frente ao longo da história da ciência, da tecnologia, da arte, etc., mas a concretização prática foi obtida por técnicos pragmáticos bons conhecedores das realidades e das ferramentas de trabalho para darem à ideia um plano e um projecto realista.

Infelizmente, o mundo tem sofrido as consequências de aventuras fúteis e precipitadas por entusiasmos de pessoas, com poder, que se consideraram competentes e detentoras de toda a verdade e saber e cometeram erros graves cuja recuperação teve que ser demorada e com muitos danos para a Humanidade. O caso da gruta na Tailândia pode ter resultado de curiosidade, mais ou menos científica, ou colectiva ou apenas do treinador que induziu os seus discípulos a uma situação irreflectida e com riscos incompatíveis com as suas capacidades de solucionar. Felizmente para eles, tudo acabou bem, mas deixaram a lição de que aventuras deste género devem ser tomadas apenas por grupos de dois ou três, tendo atrás um apoio para socorro imediato no caso de dificuldade inesperada.

O caso do Sporting Club de Portugal foi grave e inconveniente, lesando a sua história relevante, não apenas na imagem, mas também nos próximos resultados. Estiveram em foco a falta de sensatez, de ponderação, de lógica, sem método nem finalidade racional e coerente, que alguns jornalistas apelidaram de loucura. Os conflitos geradores de hostilidades entre pessoas que devem usar convergência de esforços, são de evitar a todo o custo, para não estragar o espírito de equipa. O consenso deve ser a ferramenta a usar com lealdade e espírito construtivo para conseguir o maior êxito do trabalho conjunto. O respeito pelos outros e a vontade de obter vitórias devem ser desenvolvidos em permanência no espírito de todos os elementos de um clube.

Quanto à tentativa de acabar com o espectáculo das touradas, foi mais um exemplo da mentalidade de políticos que se consideram donos de todo o bom senso e querem impor ao povo as suas idiotices, custe a quem custar. A vida não pode ser gerida por caprichos. Tive animais domésticos e gosto de todos os animais, como se deduz do texto publicado recentemente, “Os ‘ditos irracionais’ e nós”, mas discordo que se faça a antropomorfização dos animais. Cada macaco em seu galho. Se se pretende chegar ao ponto de proibir as pessoas de se alimentarem de carne para não sacrificar a vida de animais, como se vai condenar o leão que come a zebra, ou outros animais carnívoros que seguem as forças da natureza para se alimentar? E qual é o bom senso de um político que quer proibir a tourada, divertimento do touro que nela mostra a sua valentia e combatividade, mas ignora o sacrifício de muitos desportistas que arriscam a vida para vencer uma prova? E que preocupação sente pelas pessoas que vivem com grandes dificuldades de subsistência? Devem ser escolhidos objectivos de VALOR, com SENSATEZ, e procurar concretizá-los com LÓGICA e MÉTODO. ■


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Causalidade e Rã Surda

Transcrição de artigo do Público, seguida de NOTA:

  "Nos países desenvolvidos"
Publicado no Jornal de Notícias de 19-04-2012, às 00.00. Por Manuel António Pina

É conhecida a anedota da singular noção de causalidade daquele investigador que cortou as patas a uma rã e lhe disse: "Salta!"; e que, como a rã não saltasse, concluiu que, quando se cortam as patas às rãs, elas deixam de ouvir.

Ocorreu-me essa história ao saber do estudo que sustenta mais uma nova redução das indemnizações por despedimento que o ministro Álvaro (quem haveria de ser?) anunciou que levará à Concertação Social, estudo que conclui que... nos países desenvolvidos indemnizar trabalhadores despedidos não é obrigatório. Assim, acabam-se com as indemnizações por despedimento e, zás!, passamos a "país desenvolvido". E poder-se-ia ainda aumentar também os salários para os níveis praticados nos países desenvolvidos e então é que ficaríamos tão desenvolvidos, ou mais, que os países desenvolvidos. A ideia, no entanto, não ocorreu ao ministro Álvaro, como não lhe ocorreu a ideia de se demitir, pois nos países desenvolvidos ninguém salta da blogosfera para ministro...

A mesma provinciana lógica causal foi recentemente invocada pelo secretário de Estado da Saúde para justificar uma nova cruzada antitabagista: nos países desenvolvidos - mais um esforço, portugueses, se quereis ser nova-iorquinos! - é proibido fumar na rua, no automóvel, na própria casa de cada um.

E,  já agora, por que não restaurar também a pena de morte, seguindo esse exemplo extremo de país desenvolvido que são os Estados Unidos?


NOTA: Infelizmente, a «pressa» dos governantes leva-os, frequentemente, a conclusões inconsistentes acerca da essência dos problemas esquecendo que «não se deve tomar a nuvem por Juno». As soluções eficazes não podem reduzir-se a colocar em peça velha remendos vistosos mas inadequados.

Sobre o mesmo ministro sugere-se a leitura do artigo de opinião de Fernando Santos com o título Álvaro e o canto de sereia (basta fazer clic). Tem estilo diferente e aborda aspectos de grande fantasia.

Imagem de arquivo

domingo, 16 de maio de 2010

Equilíbrio e acção

O post A Balança colocado no Sempre Jovens por Fernanda Ferreira (Ná) suscitou-me as seguintes reflexões sobre a confusão que muitas vezes se vê fazer entre equilíbrio, estabilidade, e estagnação.

Há dias em, conversa com uma pessoa que se gabava de ser equilibrada sempre igual a si própria, tive a frontalidade de a comparar a uma peça de olaria que, sem flexibilidade, continuará sempre igual até ser destruída, até ser transformada em cacos, mesmo que seja uma preciosidade de arte antiga.

A vida não é estagnação, é movimento, flexibilidade, jogo de cintura, adaptação ao ambiente, às circunstâncias, movimento com curvas, subidas e descidas, travagens e acelerações.

Viver em equilíbrio é atravessar o obstáculo em cima do arame, sem parar, é andar de bicicleta em que não se pode parar sem um apoio externo (pôr o pé no chão ou encostar à parede) e o desvio do volante é que nos dá o equilíbrio sendo este mais fácil com o aumento da velocidade.

Por vezes, temos a tentação de elogiar o equilíbrio, a estabilidade, quando apenas se trata da estagnação, do pântano, da putrefacção, do «cada vez mais do mesmo».

Tal como o equilibrista do circo em cima do arame é preciso ter um objectivo bem determinado, com valores éticos, e depois orientar todos os passos, todos os gestos, de forma a conduzir para lá, sem cair dramaticamente pelo caminho, sem se deixar derrotar pelas pequenas contrariedades.

Na busca do equilíbrio, é verdadeira a frase «parar é morrer». É indispensável fazer face da forma mais correcta aos pequenos desequilíbrios que ocorrem permanentemente. O equilíbrio é o resultado dessa dinâmica.

sábado, 15 de agosto de 2009

Razão, emoção ou interesse?

Razão, emoção ou interesse?
(Publicada no Independente em 10 de Março de 2006, p. 43)

Quando olhamos à volta, temos a sensação de que a vida das pessoas e das sociedades a todos os níveis seria melhor e mais previsível se assentasse na racionalidade das decisões e dos comportamentos. Mas, a realidade não é assim, sobrepondo-se à razão a emoção e, muitas vezes, interesses inconfessos. E isto acontece não num ou noutro caso, mas na maioria deles. Presentemente, a Comunicação Social e as conversas dedicam demasiada atenção à hipotética pandemia da gripe das aves que no Oriente, onde teve origem, e no resto do mundo, causou no total pouco mais de uma dezena de vítima humanas. Mas, por outro lado, não se vê dedicar semelhante atenção à mortandade nos acidentes rodoviários que assume proporções gravíssimas e que podia ser drasticamente reduzida se os condutores usassem de mais cuidados, prudência, respeito pela vida própria, dos seus passageiros e de outros utentes da estrada.

Apesar do «brilhantismo» dos governantes e deputados, das avultadas somas dadas a instituições de prevenção rodoviária, dos aumentos substanciais do valor das multas e coimas e da criação das inspecções periódicas obrigatórias dos veículos, o número de mortos e feridos tem-se mantido sem alteração sensível, ao longo dos últimos anos. Todas as medidas tomadas não passaram de palavras inócuas, e tudo continua praticamente na mesma. Continua-se à espera de que uma inteligência mais iluminada descubra a solução que coloque Portugal ao nível dos países europeus, considerando a proporção da quantidade de carros existentes, do combustível consumido, etc.

Neste momento, é mais urgente combater esse flagelo real do que a gripe que tem apenas um baixo grau de probabilidade e cuja gravidade ainda não está realmente comprovada. O que estará por detrás desta falta de racionalidade? A emoção ou interesses?

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Contradições de um poder sem estratégia. 051014

(Publicada em O Independente de 14 de Outubro de 2005)

Os militares têm um estatuto específico na função pública, em consonância com as missões a que são destinados no âmbito da Defesa Nacional. Desenvolvem uma actividade de desgaste rápido, da mais alta responsabilidade, que lhes exige sacrifícios que podem incluir o risco da própria vida e estando sujeitos a significativas restrições no âmbito dos direitos, liberdades e garantias. Dado que o Estado necessita de Forças Armadas eficientes, motivadas e prestigiadas, não os tem considerado escravos gratuitos e concede-lhes compensações para essas restrições.

Estranhamente, no momento presente, assiste-se à abolição dessas compensações, chamando-lhes «regalias», transformando os militares em escravos gratuitos, reduzindo-os insensata menoridade cívica e abusando do seu romantismo patriótico, eles que consideram a Pátria como «um ideal nacional que vive impulsionado por interesses morais e psicológicos que estão muito acima dos interesses materiais». Pretende o Governo reduzi-los a funcionários públicos vulgares, mas com uma gritante ausência de bom senso, ameaça com severas penalizações aqueles que em 11 de Agosto se manifestaram contra o despojamento das compensações de direito adquiridas, sendo o direito de manifestação e de greve inerente ao funcionalismo público. Há aqui uma contradição e incoerência que brada aos céus. Por um lado, são transformados em funcionários, mas por outro lado, continuam a ser privados dos direitos liberdades e garantias dos cidadãos normais. Ao governante que produziu tais ameaças e caiu em contradição, sugerimos que imite os militares que, antes de apertarem o gatilho, identificam o alvo e fazem a pontaria. Convém que defina a sua estratégia e pense antes de falar.

Os militares ficam assim sem motivação para os sacrifícios que lhes são exigidos. Já há falta de pilotos da Força Aérea e, dentro em pouco, por este andamento, Portugal corre o risco de os militares serem contratados apenas entre imigrantes. E resta saber durante quanto tempo esses imigrantes aguentarão uma tal exploração sem compensação justa.

Irmã Lúcia, rogai por nós. 050218

(Publicada no Expresso de 18 de Fevereiro de 2005)

Pela alma da Irmã Lúcia, a minha prece para que rogue a Deus pelo destino dos portugueses. A fé e os afectos de cada um devem ser respeitados e, por isso, não está correcto que se instrumentalize a excelsa imagem desta senhora privilegiada que irá ocupar lugar de destaque na lista de beatos e santos ao lado os seus primos. Os meus parabéns ao bispo das Forças Armadas, Januário Ferreira, e ao ex-bispo de Setúbal, Manuel Martins, por terem, publicamente manifestado repúdio pelo aproveitamento político do falecimento desta santa criatura, tão considerada pelos portugueses.

Não posso deixar de me interrogar sobre o que seria feito pelos políticos se o falecimento tivesse ocorrido há um mês ou viesse a ocorrer daqui a duas semanas. Também me choca que, mais uma vez, se brinque com a Bandeira Nacional que foi colocada a meia haste agora, como o foi quando do falecimento do Prof. Sousa Franco, também durante campanha eleitoral, mas não o foi pela morte da ex-Primeira Ministra Maria de Lurdes Pintasilgo. Qual é o critério? Apesar de já ter escrito sobre a ausência de critério, ninguém explicou aos portugueses as razões. Mas o povo que pensa, acaba por tirar as suas conclusões.

Num Estado laico, não islamista, nem radicalizado em qualquer religião, aceito e acho muito bem que Belmiro de Azevedo tenha ido prestar homenagem à falecida, acho bem que Portas tenha mudado de gravata em sinal de luto, acho bem que os políticos, individualmente, na condição de católicos, compareçam às exéquias. Mas não vejo razão para se parar a campanha de esclarecimento do povo com vista à próxima ida às urnas. Certamente que milhares de eleitores dirão que nada se perde com um dia ou dois a menos na campanha eleitoral, pois o esclarecimento que dela advém é nulo. Mas estranho que os líderes partidários pensem o mesmo.

Também me choca que um líder tenha identificado a Irmã Lúcia como «figura histórica da Igreja» e «figura ímpar do século XX». Porquê estas frases? Só porque faleceu em vésperas de eleições e é preciso utilizar o facto para conquistar votos? Tenham em atenção que estes elogios irão ofender a imagem pública de muita gente por esse mundo fora, como a Madre Teresa de Calcutá e o próprio Papa João Paulo II. E que fez a Irmã Lúcia em benefício de Portugal para merecer o luto nacional? E que fez pelo mundo a partir da sua clausura vitalícia?

Com o baixo nível da campanha eleitoral ficou prejudicada a credibilidade, a sinceridade e a capacidade de compreender o país, dos políticos, mas com este aproveitamento político de um facto religioso e humano, poderão prejudicar os motivos da fé de muitos portugueses. Não falta razão aos dois bispos que ousaram saltar à estacada e apontar o dedo a este sacrilégio.