segunda-feira, 12 de março de 2012

Contratos com poderosos são sagrados

Referindo-se ao contrato com a Lusoponte para a construção da Ponte Vasco da Gama, o cronista Rui Moreira em Lusoponte e outras histórias, a dada altura diz «naturalmente que as partes se vincularam contratualmente ao cumprimento de certas condições e cláusulas, sabendo ao que se obrigavam, e sabendo da própria natureza desigual das prestações, mas perante a alteração dramática das circunstâncias do país no que ela tem de extraordinário e imprevisível, poder-se-ia admitir, o que não parece ser impedido pela nossa lei civil, a renegociação dos termos contratuais.»

E, mais adiante, olhando o problema do ponto de vista ético, recorda «que também nós, o contribuinte e o cidadão comum, contratámos com o Estado. Também nós partimos do pressuposto de uma realidade contratual definida, e da garantia de um certo número de prestações, designadamente de natureza social, da sua parte, e temos vindo a sofrer, por força da mesma alteração de circunstâncias, uma alteração substancial nas condições do acordado. No limite, os descontos feitos por nós ou em nosso nome equivaliam a um contrato de seguro que, subitamente, viu as suas cláusulas alteradas por uma das partes, pelo Estado, sem que tenha havido, sequer, uma tentativa de negociação. Será justo, ou lícito, que esse esforço nos seja pedido só a nós? Ou, pior do que isso, que seja a alteração deste contrato a permitir que o Estado mantenha inalterados os contratos que celebrou em inúmeras parcerias público-privadas? Creio bem que não.»

Parece que o abuso do emprego do verbo garantir, pelos governantes tem uma excepção quando se trata de posições em relação aos poderosos a quem são respeitados os direitos inicialmente prometidos «custe o que custar. E não é apenas a Lusoponte que vem a lume, pois não se pode desprezar a afirmação de Jerónimo de Sousa quando diz que "Não há dinheiro para nada mas ele aparece sempre para a banca".

Não é de agora, pois não é por acaso que os ex-políticos se encontram todos em folhas de pagamento de grandes empresas, com a gratidão destas pelos favores recebidos. Repare-se nos rapazes que, sendo maus alunos, foram aconselhados a inscreverem-se nas «jotas» e seguirem a «carreira» política e mais tarde obtiveram os desejados graus académicos, já com idade avançada e, por vezes ao domingo e por vezes com um professor amigo a assinar a passagem em diversas cadeiras.

Mas a conclusão é que a garantis dos contratos funciona apenas para os poderosos da alta finança e não para o contribuinte, o utente de hospitais, o beneficiário de subsídios, em suma, o cidadão comum a quem, com pretexto de as circunstâncias se terem modificado, tudo pode acontecer, como se vê nos subsídios de férias e de Natal, nas taxas moderadoras, no IVA, etc, etc. Pobre não pode beneficiar da garantia de «direitos adquiridos»

Imagem do JN

domingo, 11 de março de 2012

Heranças indesejadas

Um dia, em viagem pelo interior, um companheiro lamentava que os donos de um solar em ruínas fossem tão desleixados que não trataram da manutenção do palacete rural e não evitaram que entrasse em ruína. A conversa decorreu e chegou-se à conclusão que quem herdou a propriedade teria, certamente, muito prazer e vaidade em possuir o solar nas melhores condições, mas os seus rendimentos talvez fossem pouco mais que suficientes para manter a família e pagar os estudos dos filhos, pelo que a herança do solar constituiu um problema para ele. Mas, não tendo possibilidade de o rentabilizar, inclusive alugando a um hoteleiro que o quisesse utilizar para turismo rural, teve que optar por desprezá-lo.

Realmente, o mundo está em permanente evolução ou mudança e não podemos teimar em manter os hábitos e as rotinas que herdámos. Há que raciocinar serenamente na busca de melhoramentos que nos sejam mais vantajosos em conformidade com os factores das novas situações reais.

Estas reflexões vieram à tona a propósito da resposta de um amigo a uma mensagem que repassei, acerca do pesado orçamento do palácio de Belém (163 vezes superior ao do tempo do General Eanes, descontando a inflação) e da quantidade de pessoal que ali pesa na folha de pagamentos, cerca de 500. Escreveu esse amigo «mas o actual PR apenas herdou o sistema que vinha de trás - e é óbvio que não tem capacidade para o modificar. Por isso, pouca responsabilidade lhe pode ser assacada».

Gostava que me explicassem como é que o PR, sendo a entidade superior do país, o Supremo Magistrado da Nação, não tem poder para reduzir a obesidade da Presidência. Quem é que o impede de estruturar a Presidência, de forma económica, eficaz e adequada às necessidades, sem tantas centenas de colaboradores, que, infelizmente para ele e para o País, não o têm impedido de cometer gafes e limitar-se muitas vezes a dizer banalidades.

Custa-me aceitar que os políticos tenham criado condicionalismos legais que impeçam o PR de estruturar da forma mais conveniente, em termos custo/eficácia, os serviços da Presidência e o obriguem a dar seguimento à herança, com os vícios e erros, que encontrou na burocracia e compadrio de uma instituição demasiado pesada, opada, obesa, em relação ao «pouco» que produz para bem dos cidadãos, com excepção para os que constam na folha de pagamentos.

Não é lógico nem moral que o Supremo Magistrado da Nação seja escravizado pela máquina cara e obsoleta, engordada, impunemente, ao longo do tempo por sucessivos interesses inconfessados, que encontrou, sem poder alterá-la.

Há, realmente, heranças indesejadas.

Imagem de arquivo

É necessário fugir ao fatalismo

Há muita gente que aceita tudo, com acomodação ao fado, ao destino, e é frequente ouvir-se «pode ser que não seja nada e se for então se vê». Daí não se ter consciência da necessidade de segurança, da prevenção, de evitar os riscos desnecessários mas, pelo contrário sujeitar-se aos acidentes que causam perdas de vidas em casa, no trabalho e nas estradas.

Em vários aspectos das vidas privadas e das sociedades podem e devem ser evitadas situações graves e pode tornar-se menos grave o efeito de crises. De pouco vale denunciar as causas e acusar os causadores, chorando sobre o leite derramado se não forem retiradas lições para melhorar comportamentos futuros de precaução, prevenção e eficiência.

A Wikipédia diz o seguinte sobre o fatalismo: «Em Filosofia, o fatalismo é a concepção que considera serem o mundo e os acontecimentos produzidos de modo irrevogável. E também a crença de que uma ordem cósmica, dita Logos, preside a vida cotidiana. Mas, em geral, é uma corrente aceita por quem toma de modo passivo os eventos, não tendo a crença de que pode exercer um papel na sua modificação.»

E entretanto, surgem duas notícias, ambas, com interesse, citando o mesmo político, a referir o determinismo que tolhe pessoas que deviam tomar decisões bem preparadas mas que, por se mostrarem crentes no «inevitável», nem sempre definem claramente prioridades e estratégias adequadas. Numa das notícias defende necessidade de desmontar a ideia de que “é tudo inevitável” e na outra lamenta “bulha” para decidir “quem fica com a caneta para assinar os cheques”.

Imagem de arquivo.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Ministro das Finanças com poderes acrescidos

Não seria a primeira vez que em Portugal um ministro das Finanças se tornasse ditador.

Será interessante ler a notícia Marques Mendes preocupado com polémica do QREN não poupa críticas ao Governo em que diz “Ter um ministro das Finanças com autoridade e força política dá-me confiança. Agora, ter um ministro da Economia fragilizado preocupa-me. (…) Não o digo com prazer. Digo-o com preocupação”.

Compare-se com as seguintes notícias anteriores:

- Governo aprova comissão liderada pelas Finanças para gerir fundos
Passos rejeita competição no Governo por causa do QREN
- Pires de Lima. Polémica em torno da gestão dos fundos comunitários é "artificial"
- PS admite agendamento potestativo para obrigar ministro das Finanças a depor sobre o QREN
- Confederações empresariais pressionam Passos a manter gestão do QREN na Economia

Sobre o perigo da obsessão dos números e dos modelos matemáticos com desprezo das pessoas e da economia real ou social, ver este vídeo.

Imagem de arquivo

quinta-feira, 8 de março de 2012

Em quem podemos acreditar???

Eles falam, falam e, se espremermos, não sai nada de seguro em que possamos crer. Quem estará a dizer a verdade?

Notícia do PÚBLICO online de 07-03-2012, às 15h46m, tem por título Passos diz que a Lusoponte não arrecadou as portagens de Agosto.

No mesmo dia, às 21h39m, saiu a notícia no mesmo jornal BE diz que Passos foi “enganado” por secretário de Estado sobre Lusoponte.

No mesmo dia, às 22h22m, saiu a notícia no mesmo jornal Secretaria de Estado e Lusoponte contradizem Passos sobre portagens

Podemos acreditar em alguém? Alguém estará a dizer a verdade? Quem?

Imagem do Google

quarta-feira, 7 de março de 2012

Errar é humano mas é nocivo

Não é para estranhar, por não ser o primeiro recuo de decisões governamentais, que o Governo abre excepção para a TAP e autoriza empresa a manter salários.

É positivo ver que os governantes se consideram humanos e, como tal, sujeitos a erros, e se prontificam a corrigi-los. Mas, por outro lado, cada recuo demonstra que erram em coisas que deviam ter sido bem pensadas e dialogadas antes de serem concretizadas. É que os recuos e as manifestações que a eles conduziram têm custos sociais, financeiros, materiais e de eficiência dos serviços. É, por isso, imprescindível proceder a uma perfeita preparação da decisão.

Esperemos que se retirem as devidas lições dos erros de percurso.