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sábado, 14 de julho de 2018

HOSPÍCIO DE RUNA E A SUA CRIADORA

Runa e Princesa D. Maria Francisca Benedita


… A vida solitária, a que depois se dedicou, sugeriu-lhe o caridoso pensamento de estabelecer um hospício em que os inválidos militares encontrassem agasalho, conforto e toda a caritativa protecção. Para realizar o seu benéfico intento D. Maria I lhe ofereceu a quinta real da Luz, onde está hoje o Colégio Militar, mas a princesa, julgou o sítio acanhado, e sabendo que junto de Runa os frades bernardos do convento de Alcobaça possuíam uma propriedade denominada quinta de Alcobaça, que era muito vasta, obteve que eles lha vendessem, em 11 de Agosto de 1790, comprando também pouco depois, várias propriedades próximas, e a quinta de S. Miguel, na freguesia de Enxára do Bispo, comarca e concelho de Mafra, o que tudo custou aproximadamente 40.000$000 réis. O lugar de Runa fica no concelho de Torres Vedras; é um sitio pitoresco e de encantadoras paisagens.


Em 18 de Junho de 1792 deu-se começo às obras do grandioso edifício, sob a direcção do arquitecto José Maria da Costa e Silva, procedendo-se nesse dia à cerimónia da colocação da pedra fundamental. Corriam os tempos maus, no entretanto a construção iniciou-se com mais de 300 operários, entre pedreiros e serventes.

Quando a família Real emigrou para o Brasil, em Novembro de 1807, já as obras estavam muito adiantadas. Seguiu-se a guerra com os franceses, que terminou em 1814, e ainda mais 7 anos se conservou a família real no Rio de Janeiro, pois só em 1821, depois de ter ali chegado a notícia da revolução do Porto de 21 de Agosto de 1820, é que D. João VI se resolveu a voltar para a Europa. Durante este largo prazo os rendimentos da princesa, assim como os de toda a família real, haviam diminuído consideravelmente por causa dos franceses. D. Maria I havia consignado a sua irmã uma pensão anual de 100.000 cruzados, que não fora paga desde a partida para o Brasil. As cortes, porém, de 1822 lha restituíram. Além disso os desperdícios e as despesas excessivas nas obras do asilo de Runa, obrigaram a princesa a suspender as obras e satisfazer todas as dividas que, segundo as contas que lhe apresentavam, pesavam sobre ela.

Os trabalhos prosseguiram afinal com toda a actividade, e o asilo inaugurou-se a 25 de Julho de 1827, dia em que a bondosa princesa completava 81 anos. Foram 16 os militares inválidos que se albergaram: 1 primeiro-tenente de artilharia, 3 sargentos e 12 cabos, anspeçadas e soldados. A fundadora presidiu a todas as cerimónias da inauguração, a que assistiram muitas pessoas da corte e das vizinhanças. Ela própria, com a maior benevolência, serviu os primeiros pratos aos asilados, sendo o resto servido pelo seu mordomo-mor, o marquês de Lavradio, e pelos criados da Casa Real. O edifício, e a majestosa capela, com os seus ornamentos e alfaias, importaram em 600.000$000 réis. A princesa reservou uma parte do edifício para sua habitação.

D. Maria Francisca Benedita sobreviveu apenas dois anos à inauguração do asilo, não chegando a ver completo o zimbório da igreja. (V. Runa). Enquanto duraram as obras a princesa ia frequentes vezes a Runa, dirigindo e activando os trabalhos, recebendo ali a visita de D. João VI, numa ocasião em que o monarca regressava das Caldas da Rainha. Convivia com as pessoas que moravam nas vizinhanças do asilo, dando largas esmolas aos pobres que a ela recorriam.

A princesa conservou-se sempre estranha a às intrigas e conspirações que agitavam o paço e a corte, durante a regência e reinado de D. João VI. Em 1829 preparava-se a viver alguns meses em Runa, quando adoeceu gravemente, falecendo pouco tempo depois. Fez testamento deixando ao hospital dos inválidos de Runa quase todos os bens de raiz e acções que possua, bem como tudo quanto estava dentro do edifício e capela, incluindo a bela e riquíssima custódia, um primor artístico, que ela mandara fazer por um desenho seu. O resto da herança foi distribuído em legados pios e por todas as pessoas da família real, sendo a mais contemplada a infanta D. Isabel Maria, como regente que era na época em que fora feito o testamento.

Em virtude dos legados recebidos da princesa ficou o asilo de Runa com um rendimento de perto de 9.000$000 réis, provenientes dos seguintes valores: comenda de S. Tiago de Beduído; apólice de 26.000$000 réis com juro de 5% ao ano; título da dívida pública de 14.999$960 réis; duas acções da Companhia das Vinhas do Alto Douro no valor de 800$000 réis; as quintas de Runa, Enxara do Bispo e da Amora com seus anexos. A legislação liberal que suprimiu os rendimentos das comendas, e o não pagamento dos juros da chamada divida mansa, afectaram consideravelmente a receita do asilo. O infante D. Miguel havia confirmado o testamento, fazendo passar a administração das rendas para um conselho administrativo, ficando todo o estabelecimento sob a intendência do ministério da guerra, em cumprimento da vontade da doadora.


quarta-feira, 14 de junho de 2017

IDOSOS PRECISAM DE SOLIDARIEDADE



Idosos precisam de solidariedade
(Publicado no semanário O DIABO em 170613)

Era o Sábado 3 de Junho e os residentes do Centro de Apoio Social, à hora habitual, entraram para o refeitório para tomarem o almoço. As mesas tinham uma disposição ligeiramente diferente e os de duas mesas foram transferidos para outras com lugares disponíveis. Já todos estavam sentados quando chegaram os elementos do grupo coral de cantares alentejanos «Lírio Roxo». O Director disse palavras simpáticas de recepção aos visitantes e o almoço iniciou normalmente e, após a sopa, o Chefe do Grupo respondeu às boas vindas com os seus artistas a entoarem um canto, dos muitos que são património cultural da humanidade. E, depois, tudo decorreu sem mais condimentos nem molhos.

Saídos do refeitório foram se dirigindo para o Bar e para a Sala de Leitura onde a arrumação das cadeiras tinha sido feita por forma a haver espaço para os artistas e para a assistência. Quando chegou a hora de iniciar, o Director fez um breve e simpático discurso que agradou a todos e o Coro iniciou com a primeira moda, finda a qual e terminados os aplausos, o Chefe respondeu ao Director e disse palavras amáveis aos presentes, alguns em cadeiras de rodas e outros um pouco alheios por estarem dominados pelos efeitos da doença.

Ao fim de várias modas, foi feito um intervalo para os cantores, o qual foi preenchido por uma acordeonista que entreteve a assistência com música variada que se prestou a que homens e mulheres dançassem. Alguns, depois de se afastarem das bengalas e canadianas, procuraram mover-se um pouco, com muito prazer e algum esforço. Um destes, a meio da canção, desistiu porque o esforço já era demasiado. A idade exige distracção, convívio e divertimento, mas dentro de limites que, em alguns casos, são muito apertados.

Depois da actuação da acordeonista, houve lanche e, a seguir, novos «cantes» alentejanos até ao encerramento.

Foi uma tarde bem passada, em ambiente muito agradável, sem qualquer discriminação entre residentes, empregados, artistas e familiares que se inseriram com oportunidade. Estas horas bem passadas com prazer para todos correspondem à problemática referida no meu texto publicado no semanário O DIABO em 21 de Março de 2017 com o título «Os idosos não precisam apenas de comer e dormir». Também, há poucos dias, li notícia que diz que, na Holanda, há regular apoio de jovens estudantes a lares de idosos, ao ponto de estes lhes darem alojamento para lhes facilitar conversarem e distraírem os idosos internados.

Realmente, o meu artigo tinha título correcto e merece ser devidamente interpretado e aplicado, dentro das possibilidades existentes, não apenas nos lares mas também em família, na vizinhança e em grupos de amigos. Acerca disto, transcrevo palavras do Papa Francisco sobre o envelhecimento, em que segundo Ele, se aprende coisas essenciais como «A felicidade interna não vem das coisas materiais do mundo… quando se tem amigos e irmãos, com quem falar, rir e cantar, isso é felicidade verdadeira».