Mostrar mensagens com a etiqueta Planear. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Planear. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 3 de maio de 2019

CUIDADO E PRECAUÇÃO, SEMPRE

Cuidado e precaução, sempre
(publicado no semanário O DIABO nº 2209 de 03-05-2019, pág 16?

São imensos os acidentes de várias espécies que têm vindo a público, com perdas de vidas, de bens materiais e de danos para o meio ambiente que podiam e deviam ser evitados com práticas sistemáticas de cuidado e precaução com a manutenção e a utilização de equipamentos. Pessoas menos conscienciosas dirão que os cuidados e as medidas de precaução de que é exemplo a manutenção de materiais, têm custos. Mas, em sentido contrário, não podemos tentar esquecer que as vidas perdidas os haveres estragados por acidentes evitáveis têm um preço muito mais elevado, por vezes incalculável e com efeitos demasiado dolorosos para as vítimas e suas famílias, além da emotividade desagradável da população em geral.

Há poucas dezenas de anos, em meios próximos da educação e da formação profissional era defendida e aconselhada a excelência dos resultados do trabalho, mas o aparecimento de uma onda juvenil de falsos filósofos, ainda imberbes nas artes profissionais e convencidos de que estavam dentro do conhecimento da digitalização, lançaram a ideia de que o que era necessário era chegar ao fim sem olhar para a qualidade do trabalho, afastaram o culto da excelência no trabalho e deixaram lugar vago para o desmazelo e o desleixo generalizado que está a minar o desenvolvimento das indústrias e dos países.

O incêndio que deflagrou na catedral de Notre Dame de Paris em 15-04-2019 e que a podia ter deixado irrecuperável, deve ter sido gerado por material tratado com menos cuidado, menor precaução ou inconveniente desleixo, desmazelo ou desprezo, por pessoas não totalmente conscientes do possível perigo.

A queda do autocarro cheio de turistas, na Madeira, em 17-04-2019, que se despistou e capotou pela encosta, matando 29 turistas e ferindo 28, segundo suspeitas, pode ter perdido os travões durante o percurso, pouco tempo depois de abandonar o hotel. E isso poderia não ter sucedido se a viatura tivesse sido cuidadosamente vistoriada antes da sua utilização, ou se o motorista a tivesse imobilizado logo que detectou que algo não estava a funcionar correctamente.

Em Agosto de 2010, o despiste de um autocarro dos Transportes Colectivos do Barreiro, em frente da estação do terminal rodo-fluvial, causou um morto e quatro feridos ligeiros. O acidente ocorreu quando o autocarro se despistou e embateu noutro autocarro da mesma empresa municipal de transportes públicos. Uma melhor concentração do motorista naquilo que estava a fazer teria evitado o morto e os feridos.

Em Outubro de 2010, quatro pessoas morreram num acidente de viação no Itinerário Principal 4 (IP4). Ao quilómetro 93, uma colisão entre um ligeiro e um mini-autocarro provocou quatro mortos, três alunos polacos e um residente de São Cibrão, e 10 feridos ligeiros, todos jovens do Abambres Sport Club. A que se terá devido a falta de concentração do motorista no trabalho que ia a realizar?

Em 10 de Março último caiu na Etiópia um avião, seis minutos depois de descolar, tendo morrido todos os 149 passageiros e 8 tripulantes. Provavelmente, antes da descolagem não teria sido devidamente inspeccionado. E, possivelmente, o piloto do voo anterior não deve ter informado sobre qualquer deficiência detectada.

Em 29 de Outubro passado, um Boeing caiu no Mar de Java, devido a uma causa desconhecida, o piloto entrou em contacto com a torre de controle e pediu para retornar ao aeroporto, porém a aeronave perdeu o sinal 13 minutos depois, o avião que transportava 189 passageiros entre eles uma criança e dois bebés, caiu ao mar, tendo morrido todos os seus ocupantes. Em 11-12-2018, fiz em O DIABO um apelo para se tomarem medidas preventivas a fim de “Reduzir os acidentes rodoviários”.

As vidas assim perdidas e os ferimentos podiam provavelmente ter sido evitados se tivesse havido o culto da excelência quer dos mecânicos quer dos motoristas e pilotos.

Vale mais prevenir do que remediar. ■


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

PREPARAR O FUTURO

Preparar o futuro
(Publicado em O DIABO nº 2198 de 22-02-2019, pág 16)

 Há muitos indícios de que Portugal vive, há demasiado tempo, numa pasmaceira ou pântano, sem sinais de projecto que conduza a uma reforma estrutural que eleve o país a um desenvolvimento e crescimento adequado a melhor qualidade de vida das pessoas e crescimento da economia com resultados melhor distribuídos com justiça social, por forma a criar uma justificada credibilidade de governos e partidos inspiradores de maior confiança dos cidadãos em quem os governa. É frequente ouvir-se falar da conveniência de comparar as obras realizadas e as decisões tomadas para bem dos portugueses nos últimos 44 anos com as do período de igual duração anterior ao 25 de Abril, apesar do esforço de guerra no Ultramar.
E são referidos novos hospitais, tribunais, quartéis para militares e para GNR, Polícia, bombeiros, escolas, aeroportos, etc. E na situação financeira havia uma reserva de barras de ouro de valor histórico, e agora há uma dívida que sobrecarregará várias gerações.

A falta de sentido de Estado e de preparação para encarar o futuro com correcta definição de objectivos a atingir e escolha de boas estratégias, geral e sectoriais, para os alcançar, conduziu a um “deixa andar e depois se verá”, com o resultado que Guterres definiu como “pântano” e utilizou como pretexto para deixar o Governo que chefiava. Depois veio Durão Barroso, que não detectou forma de brilhar à frente do Governo e aproveitou a oportunidade de ir ocupar alto cargo na União Europeia, sendo substituído por Pedro Santana Lopes, que tentou iniciar a descentralização do poder executivo, com uma decisão imponderada e ridícula de deslocar uma Secretaria de Estado para Portalegre. Esta decisão foi recordada com a recente e esquisita promessa de mudar o INFARMED para o Porto, o que deu despesas para pagar pareceres a amigos coniventes, mas que, mesmo assim, foi esquecida. Santana Lopes acabou por ser demitido pelo PR, que mostrou não ser contemporizador nem recear tomar decisões. Depois veio Sócrates, que se deixou pressionar por construtores, deixando-se levar a construir auto-estradas, algumas sem necessidade e até paralelas a outras já existentes, e a criar uma alternativa ao Aeroporto de Lisboa, na OTA, apesar de a orografia não ser nada adequada a tal obra, mas para isso tinha o apoio de amigos que, entretanto, compraram terrenos para serem expropriados por alto preço ou para serem urbanizados, com bons lucros. Também a auto-estrada para o Algarve teve três alternativas, não por razões correctas mas devidas a pressões de políticos que tinham comprado terrenos que, nessas hipóteses, dariam grandes lucros na expropriação. Custou conseguir que a escolha fosse a mais lógica.

Quanto aos anos mais recentes, não é preciso fazer esforço de memória porque as pessoas não esqueceram com facilidade, e a prometida reforma estrutural está em todas as cabecinhas pensadoras, tal como a ausência de decisões para bem da nação, a insatisfação generalizada que tem gerado
greves, com graves prejuízos para utentes de serviços públicos, como universidades, escolas, jardins de infância, hospitais e centros de saúde, transportes rodoviários e ferroviários, finanças, serviços da segurança social ou de estrangeiros e fronteiras, etc.

Está a ser necessário, com urgência, alguém com dedicação a Portugal, competência e coragem para ordenar o estudo de uma reforma estrutural abrangente, com uma estratégia bem definida para atingir finalidades coerentes com os interesses nacionais. Essa estratégia geral deve ser decidida e depois
preparadas as estratégias sectoriais, por forma a haver uma coerência e convergência de todos os sectores para serem obtidos resultados em perfeita harmonia entre si e sem necessidade de paragens e recuos que são sempre custosos, pelo menos no factor tempo que constitui o tesouro mais precioso
por ser irrecuperável. ■

António João Soares
15-02-2019


terça-feira, 4 de setembro de 2018

PERSPECTIVAS PARA AMNHÃ

Perspectivas para amanhã?
(Publicado no semanário O DIABO em 4 de Setembro de 2018

Em democracia é curial haver liberdade de opinião e as decisões serem tomadas em nome do povo com o suposto consentimento da maioria, o que por vezes exige referendos mas, no mínimo, consultas informais aos sentimentos e vontade popular, por forma a que a decisão seja apoiada por maioria e corresponda aos desejos de serem o atingidos objectivos que contribuam para o desenvolvimento do país e a melhoria das condições de vida dos eleitores.

Isto concretiza opiniões que dizem que, em democracia, a governação, para tomar decisões, inspira-se nas pessoas e não lhes impõe nada que elas rejeitem. O poder é representante das pessoas e seu mandatário.

No artigo aqui publicado em 27 de Setembro de 2016, ao referir as fases da preparação da decisão dizia, a certa altura, que há necessidade de listar todas as possíveis soluções para o problema a fim de atingir a finalidade ou o objectivo pretendido, tendo o cuidado de incluir mesmo as que pareçam pouco adequadas ou aparentemente absurdas, sem preconceitos. Nesta fase não deve ser preterida nenhuma, por menos adequada que pareça.

A seguir, foca-se a atenção em cada modalidade listada e analisa-se à luz dos factores previamente considerados, para ponderar as respectivas vantagens e inconvenientes com intenção de prever como a acção iria decorrer se essa modalidade fosse a escolhida. Após essa análise faz-se a comparação entre elas, das suas vantagens e inconvenientes, com vista a escolher a melhor. Na escolha há modalidades rejeitadas de início por serem pouco adequadas e dedica-se a máxima atenção às melhores até se decidir pela que tiver uma boa cotação no balanço de vantagens e inconvenientes.

Recordo isto para salientar a conveniência de olhar para um problema por todos os lados e com todas as ópticas, independentemente de interesses particulares ou ideológicos. Portanto, a bronca de “desconvidar” uma oradora para a Web Summit, uma ‘cimeira’ tecnológica e empresarial que este ano se reunirá em Lisboa, parece que não se coaduna com a democracia nem com a metodologia de analisar problemas e procurar resolvê-los correctamente. Essa pessoa daria uma ideia que seria ouvida, sem imposição, e ampliaria a análise de assuntos. A opinião é livre e deve ser respeitada sem ter de ser colocada em prática, nem ser forçada a sua aceitação.

Mas este caso é uma aberração em democracia e tem sido alvo de comentários dizendo que se trata de um pequeno grupo de exóticos intelectuais inspirados em teorias fascistas-comunistas-estalinistas, que já foram rejeitadas pela Rússia, pela China e por Cuba e que, actualmente, estão a causar terrível crise social e económica na Venezuela. E tais comentários alertam para perigo nacional por o Governo não reagir e lhes tolerar tais aventuras arriscadas.

O nosso amanhã, com este afastamento da democracia, corre graves riscos de ficar caoticamente condicionado por aventureiros radicais extremistas que não respeitam os outros.

Curiosamente, a referida oradora que foi “desconvidado”, recebeu, em eleições livres na França, os votos de um terço dos eleitores. O caso de o seu convite ter sido rejeitado pela organização da cimeira internacional não vai deixar bem visto o nosso país na opinião pública europeia.

E assim se perde um evento com oradores diversificados que permitiria troca de ideias e mundividências com interesse para assistentes de qualquer parte do leque político-partidário. O bom senso e o respeito pelos outros, sem a troca aberta de ideias saem muito diminuídos desta gaffe. A troca de ideias, em conformidade com a metodologia para a preparação da decisão, atrás recordada, só traz vantagens para o momento seguinte, o da aplicação prática da decisão, do plano ou do programa a desenvolver.

António João Soares
28 de Agosto de 2018


terça-feira, 17 de abril de 2018

PLANEAR COM SENTIDO ESTRATÉGICO... PARA O FUTURO

Planear com sentido estratégico… para o futuro
(Publicado no semanário O DIABO em 17-04-18)

As alterações da ondulação do mar, devidas a condições climáticas, têm provocado a destruição de cordões dunares e deixado sem areia as praias da Costa de Caparica. As condições actuais testemunham a deficiente atenção dada ao problema quanto a planos eficientes, com sentido estratégico, para evitar riscos em pessoas e património, nos muitos equipamentos e habitações ali existentes. Segundo notícia recente do «Notícias ao Minuto», na Câmara Municipal de Almada pretende-se proceder à retirada da população, tendo os planos para relocalização que ser equacionados "num período sempre a 100 anos", para não fazer a deslocação forçada em pouco tempo, o que acarretaria custos e sacrifícios elevados.

Mas, segundo a mesma notícia, o Presidente da Junta de Freguesia mostra ser mais prático reforçar a proteção do litoral e evitar o recuo da zona urbanizada.

Ambas as modalidades têm vantagens e inconvenientes e não deve optar-se por qualquer delas sem uma análise muito cuidada de cada uma a fim de se investir na melhor delas, ou escolher outra que seja mais vantajosa. Será oportuno aplicar, na procura da solução, a metodologia referida no artigo «preparar a decisão» publicado no semanário DIABO em 27 de Setembro de 2016.

O recuo ou deslocação da população começará a ter efeito daqui a alguns anos e torna-se mais pequena a dimensão do país, ao contrário de alguns exemplos de outros países, como a conquista do mar para construir o aeroporto de Macau, a Holanda que tem lutado para o aproveitamento das zonas baixas que deram nome aos «Países Baixos», o Mónaco que está a alargar a sua pequena área para o Mediterrâneo, não apenas para instalações ligadas ao mar, mas para habitação e fins comerciais e industriais, o Kuwait e o Dubay que têm aumentado grandemente as suas áreas para fins turísticos e outros, com grandes avanços sobre o mar.

Quanto à Caparica, já li que houve a intenção de a ligar por uma larga avenida ao Farol do Bugio e o aproveitamento deste para finalidades turísticas, de bares e de recreio. Mas as obras de protecção do litoral não podem ser tão artesanais como as que têm sido usadas, devendo-se utilizar fundações adequadas para os «cordões dunares», bem como para equipamentos de bar, restaurantes, parques de campismo e habitações, etc, a fim de ondas mais altas não lhes retirarem o solo subjacente e as destruir.

Qualquer que seja a solução adoptada, deve merecer a concordância de Governo e oposição, a fim de ter continuidade depois da primeira legislatura, para não se anular o custo da obra já feita e a deixar ruir, como aconteceu com o plano do aeroporto de Lisboa na Ota, depois em Alcochete e agora em Montijo, ou o TGV Lisboa-Elvas, ou a rede ferroviária de bitola europeia, ou a limpeza das bermas das estradas legislada há muitos anos mas só agora objecto de atenção, a «proposta para fiscalizar indústria de pirotecnia na gaveta há dois anos», etc.

A Natureza tem muita força e não pode ser totalmente contrariada, mas a segurança do património e das populações é dever essencial dos Governos. Por isso, perante as previsíveis alterações ecológicas, convém estar preparado para o aumento de riscos, com planeamentos adequados e preparados para alterações correspondentes às previsões da mudança climática. Para isso, deve ir-se além do critério de decisões de emergência (do «agora vai ser assim e, depois, logo se verá»), e decidir planear a pensar num futuro distante, sem pôr de lado a conveniência de introduzir os indispensáveis ajustamentos aconselhados pela evolução das circunstâncias. E, depois, acima de tudo isto, é imperioso que os sucessores garantam a sustentabilidade. Estes devem ter sempre presente que as grandes obras de que Portugal se orgulha não podiam ter sido construídas numa legislatura de quatro anos, em que os sucessores anulassem a obra iniciada pelos antecessores. Os interesses nacionais devem constituir a primeira prioridade dos governantes e ser planeados, iniciados e realizados, com sentido estratégico e de responsabilidade perante Portugal e os portugueses.

António João Soares
10 de Abril de 2018

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

OLHAR PARA O FUTURO É IMPERIOSO

Olhar para o futuro é imperioso
(Publicado no semanário O DIABO em 9 de Janeiro de 2018)

A vida é uma escola em que devemos estar sempre atentos para aprender coisas novas e para reforçar conhecimentos anteriores. Viver é como fazer um percurso a corta-mato em que, ao dar um passo, devemos estar certos do ponto em que vamos colocar o pé, a fim de não cairmos e termos ferimentos graves. Devemos estar sempre com os olhos no futuro, no resultado de cada acção, para termos a noção de que estamos no bom caminho para atingir o objectivo pretendido. Este conceito tem sido aqui referido em diversos textos publicados sobre a preparação da decisão, o planeamento, etc. E foi com agrado que deparei com a notícia da inauguração da sede da Associação de Vítimas de Incêndios de Pedrógão Grande, AVIPG, em que o Chefe do Estado realçou o facto de esta «possuir uma dinâmica de futuro, que sublinhou como sendo caso “muito novo” no cenário português.

Perante a memória de uma situação trágica, em vez de pararem em lamúria, decidiram preparar um futuro melhor e iniciar já um desenvolvimento para o conseguir que, segundo ele, são “três dimensões juntas” e “muito raras” que destacam a AVIPG como um exemplo modelar de um novo caminho a seguir pelas populações e pelos seus responsáveis - autarquias e governos.

E o mais significativo é que o futuro pretendido não tem limite de tempo, sendo indeterminado e recebendo adaptações às evoluções de situações que, entretanto, ocorrerem. É uma filosofia para orientar a evolução para uma «nova era» em que o objectivo é conseguir a melhor qualidade de vida para os habitantes, seus animais de estimação, suas propriedades rurais e industriais e o seu património privado e público.

Quem cai deve levantar-se e continuar a vida. É assim que as crianças iniciam a sua capacidade para andar. Chorar um fracasso nada resolve, e o que interessa é analisar aquilo que originou o acidente e pensar inteligentemente no futuro para que não volte a acontecer a mesma desgraça ou outra. Assim, uma tragédia pode ser um estímulo útil para preparar um caminho mais eficiente para um futuro melhor. O PR frisa muito bem que este caso da AVIPG deve ser tomado como modelo a seguir por todos os que têm responsabilidades pelo povo, pelo património de hoje e de sempre. Já houve em Portugal situação semelhante, mas que não serviu de modelo durante muito tempo. Após o terramoto de 1775 surgiu um urbanismo que ainda é exemplar: a baixa pombalina de Lisboa e a cidade de Vila Real de Santo António. Mas, agora, não é preciso que se copiem as práticas da AVIPG mas, sim, o seu raciocínio que conduz a aproveitar a situação real e, em vez de reerguer o passado, pensar num futuro mais adequado às necessidades e às conveniências colectivas e preparar um futuro melhor, tudo devidamente ponderado a fim de ter continuidade, atendendo a custos e benefícios.

Se os governantes assumissem este exemplo, não ficariam parados tantos projectos válidos para a ferrovia, o aproveitamento e conservação da água fluvial e outras coisas da vida dos cidadãos, principalmente do interior.

E não esqueçamos que a catástrofe de Pedrógão foi há meio ano. E daqui a meio ano pode ocorrer, em qualquer local, incêndio de graves dimensões. E não podemos deixar de perguntar: o que foi feito, nestes seis meses para evitar mais fogos graves? Que medidas preventivas estão em marcha, para evitar e para combater com mais eficácia os que não forem evitados? Que sentido de futuro existe no Poder Executivo? E o que tem saído do Poder Legislativo, nesse sentido? Tem-se ocupado com aquilo que considera mais urgente: as finanças dos partidos, lesando o erário público, dos cidadãos. E aquilo que interessa à melhoria da qualidade de vida deste?

António João Soares
2 de Janeiro de 2018

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

NUNO CRATO CONFESSA OMISSÃO


Quando era criança, aprendi que os pecados podem ser por pensamentos, acções ou omissões e agora deparo com o ministro Nuno Crato, depois de quase dois anos e meio de Governo, a confessar que ainda há muito a melhorar nas escolas portuguesas.

E que melhoramentos fez durante todo este tempo, mais de metade do mandato? Já houve tempo suficiente para analisar a situação, fazer o diagnóstico e aplicar a terapia para, no fim da primeira metade do mandato, começar a colher os louros das medidas tomadas. Isto evidencia que realmente o País precisa de muita coisa a melhorar, a reformar, mas não parece que tais tarefas estejam ao alcance dos actuais governantes. Pelo menos, depois de muito entrados na segunda parte do mandato, o Governo ainda continua à espera que um milagre resolva os problemas do País.

E ainda há quem repita que a culpa é do governo anterior!!! Afinal, para que serviu a austeridade que empobreceu grande parte da Nação? Ressalta assim outra notícia de título “O governo magoa a população e sente-se orgulhoso”

Imagem de arquivo

segunda-feira, 24 de junho de 2013

MAIS DO MESMO


O Sr ministro Poiares Maduro, aparentemente, vindo de longe e sem ainda ter concluído o seu estudo analítico da situação com que os portugueses se debatem, apressou-se a manifestar a sua boa intenção dizendo querer oferecer esperança aos portugueses. Terá de ficar-se pela intenção porque os portugueses, há mais de dois anos, ouvem tais promessas («garantidas» e asseguradas») sem deixarem de ver a sua fome aumentar bem como o desemprego e os sacrifícios da austeridade excessiva e sucessivamente agravada. Por isso, as palavras generosas e supostamente bem intencionadas são «mais do mesmo».

A esperança já não pode vir pela via das palavras e promessas, mas sim pelos resultados, que já foram prometidos pelo PM para 2013 e que, como a generalidade das promessas, ficaram esquecidas no tinteiro. O povo português, como está acontecer com os brasileiros, não poder ser iludido eternamente e, como disse Mário Soares, às tantas zanga-se.

Diz também o Sr ministro Maduro que Portugal viveu "demasiado tempo sem planear o futuro" e diz muito bem, mas não deve dizê-lo em público, pois esse recado deverá ser interiorizado pelos seus colegas do Governo. Eles não têm sabido ou querido «planear o futuro». Muitas pequenas e médias empresas têm mostrado muita competência em preparar o seu futuro e estão florescentes apesar da má política que Portugal vem tendo desde há 39 anos.

Mas planear o futuro exige que se conheça bem o presente com todos os seus factores condicionantes. Um avião parte para uma missão começando pela descolagem, isto é, do ponto de partida, depois de testadas as condições do avião e de a pista estar desimpedida e em boas condições. O mesmo acontece com o atleta que, antes do salto, tem que saber fazer a «chamada». O piloto de fórmula 1 deve preparar uma boa posição na linha de partida e ter o carro bem afinado.

Por isso, Sr ministro, não despreze o conhecimento rigoroso da situação actual, em que os desabafos das pessoas, mesmo que sejam mais modestas do que o empresário de granitos que se lhe dirigiu na Feira do Granito de Vila Pouca de Aguiar, devem ser tidos como factor importante no seu estudo do Portugal actual.

Nunca se esqueça que cada português tem um voto igual quer seja um sem-abrigo ou o PR e convém que isso seja sinal de que lhe deve ser dada igual atenção e respeito pelos seus direitos, liberdades e garantias, no quadro da Constituição.

Imagem de arquivo

domingo, 17 de março de 2013

PM é prometedor compulsivo


Perante a sucessão de desaires governativos progressivamente agravados e umas previsões para os próximos anos na sequência da espiral recessiva, Passos Coelho, com a sua habitual intenção de criar optimismo e esperança nos portugueses disse que «devemos procurar desmentir as previsões» do Governo, a que preside. Não disse quem é o sujeito de «devemos», mas supõe-se que sejam os governantes, os mesmos autores das previsões. Ele próprio disse que vai trabalhar para evitar que as previsões económicas se concretizem, as tais do seu Governo (mas ele não se passou para a oposição!!!).

Essa sua intenção começou por gerar em mim um efeito afrodisíaco, de estupefaciente, de incentivo à confiança no homem do leme.

Mas depressa, acordei dessa queda na letargia e me recordei que em 14 de Agosto (aniversário da batalha de Aljubarrota) último, Passos anuncia o fim da recessão em 2013, ideia de falsa propaganda que, poucos dias depois, foi evidenciada como absolutamente lunática ou utópica e hoje, passado pouco mais de meio ano, com sucessivas previsões falhadas e substituídas por outras mais pessimistas ou realistas, já não se repudia o conceito de «espiral recessiva» e de esperar que a recessão termine só para o próximo Governo. E, apesar de o seu Governo ser o autor das previsões, ele desdramatiza de forma incompreensível que “Previsões são apenas previsões”, o que significa que o médico deste doente, depois de receitar o mesmo remédio que agravou a doença e que, por isso, não a pode curar, não consegue optar por outra terapia menos danosa, mas reconhece que nem imagina sequer quando o doente recuperará, se é que algum dia conseguirá melhorar.

Entretanto, pessoas observadoras atentas dizem que as "coisas vão de mal a pior" e outras admitem que primavera é tempo de ruturas e outras fazem prognósticos menos optimistas. Do seu próprio partido sai a notícia de quem defende demissão do Governo.

Senhor primeiro-ministro, os portugueses não precisam da continuação dos seus anúncios de boas intenções, ideias, promessas e «planos» que conhecem há quase dois anos sem a mínima repercussão na melhoria das suas vidas (fome, desemprego, saúde, escolas, segurança, etc); eles ficariam mais motivados para aguentar se vissem efeitos positivos dos sacrifícios já sofridos, se vissem que valeu a pena, mas os números conhecidos produzem um efeito contrário, demasiado depressivo. Como não lhes pode mostrar os resultados positivos que desejam, não tente embriagá-los mais, com fantasias que não consegue concretizar. Procure colocar no terreno as promessas que faz desde há mais de dois anos, quando ainda andava à caça dos nossos votos.

E quando decidir falar em público, procure explicar claramente, para ser compreendido pelos mais sacrificados, como podemos ter esperança em tempos melhores, como podemos acreditar que os governantes que têm apertado os nossos cinto,s dia após dia, sejam agora capazes de agir com mais realismo e eficácia, para melhorar as vidas das pessoas mais carentes de meios de subsistência.

Imagem de arquivo

domingo, 20 de maio de 2012

Portugal de amanhã ???!!!

Os portugueses que desejam vislumbrar os caminhos que estão a ser preparados para avançar para o tão falado «crescimento» de Portugal devem ficar surpreendidos com a notícia Pescas e caça são novas apostas do ensino profissional vinda a público no Jornal de Notícias.

Tratar-se-á de uma«Brilhante» ideia ???!!!
Será com estas profissões que se espera criar «crescimento»?
Será isto que irá aumentar as exportações e colocar Portugal ao nível dos mais desenvolvidos parceiros europeus e do mundo???
Para onde queremos ir?
Que objectivos pretendemos atingir com esta estratégia?
Porque não preferiram o futebol e o golf ????
Em que local remoto residirá a eventual pouca lógica que os governantes possuem???

Mas, felizmente, fora dos gabinetes ministeriais, alguns portugueses mostram mais sensatez, maior sentido das realidades e tomam decisões mais adequadas ao crescimento concreto, evidenciando inteligência prática. É o caso da notícia do mesmo jornal Transportes para turistas são negócio dourado no Porto, muito coerente com as perspectivas, há muito enunciadas, de que o Turismo poderá ser uma via prioritária para o crescimento.
Como será o Portugal de amanhã? Para onde querem levar o nosso País?

Imagem de Joana Gândara Reis, do JN

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O PSD ACREDITA !!!

Afínal eles poderão nem todos pertencer a lojas, como há poucas semanas se dizia mas, sim, a capelinhas de fanáticos que acreditam, garantem, asseguram, mas apesar de serem tão apegados à frieza dos números não conseguem convencer com contas de «a mais b». E sem argumentos seguros não conseguem atrair fieis para as suas crenças.

Agora, o PSD acredita numa inversão do desemprego no segundo semestre, mas nem todos os portugueses se esqueceram dos malabarismos com as crenças sucessivamente alteradas sobre a previsão da data do retorno dos subsídios de férias e de Natal.

E apesar das declaradas crenças, a capacidade de adivinhar tem sido muito fraca como no caso em que, em fins de Abril, o ministro das Finanças admitiu que os níveis do desemprego estavam mais elevados do que se previa e como a fé da ministra da Agricultura que esperava chuva em Dezembro mas que só apareceu em Abril e em pequena quantidade.

Os portugueses que não pensam apenas em futebol não estão interessados que os deputados do partido do Governo confessem a sua fé e as suas crenças religiosas e preferem que, se puderem e tanto quanto possam, lhes expliquem as medidas que pretendem tomar para resolver os problemas nacionais.

Tais explicações seriam úteis para cada um poder imaginar o futuro, destinar alguns investimentos ou fazer poupanças e decidir como as guardar. À falta de segurança quanto ao futuro, pode acontecer como na Grécia em que de repente foram levantados dos bancos mais de 700 milhões de euros. Cá já há quem esteja a guardar dinheiro debaixo do colchão, mesmo com o perigo de, se não estiver bem colocado, poder criar problemas de escoliose e outros.

Mas numa coisa devemos partilhar na crença do PSD, pois o desemprego já está de tal forma que não pode continuar a aumentar sem risco de grave convulsão social. Daí em os deputados e seus colegas de partido se deverem concentrar não em crenças mas em medidas que estimulem os agentes económicos a criar empregos e desenvolvimento.

Imagem de arquivo

terça-feira, 1 de maio de 2012

Crescimento exige Estratégia



Estas árvores, crescendo rigorosamente na vertical, têm em vista um objectivo a atingir que, como é de boa norma, está acima do possível, para que não haja esmorecimento ou falta de estímulo e motivação. Para isso, têm uma estratégia que seguem, na verticalidade, sem hesitações, sem desvios do rumo estrategicamente definido. Assim, não têm surpresas nem hesitações nem precisam de fazer recuos e avanços intempestivos.
Como não há desvios, não sofrem percas de tempo, de recursos ou de energia.
Que bela lição é dada por estas árvores a muitos gestores conhecidos que, por incompetência, sacrificam os interesses colectivos daqueles que deviam por eles ser defendidos, protegidos e ajudados na obtenção de melhores condições de vida.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Crise é oportunidade e desafio


Uma crise, um obstáculo, uma situação inesperada e desagradável coloca os débeis em lamentações, lágrimas, inibição, e a pedir socorro. Mas leva os fortes a puxar por todas as energias analisar os danos, as condições em que o desastre ocorreu e buscar as melhores soluções. Há que repensar os projectos de vida e encontrar soluções mais criativas e eventualmente mais satisfatórias. É isso que temos observado nos Países Emergentes, no denominado terceiro mundo, em que depois das crises surgem períodos de acentuado desenvolvimento.

Entre nós, parece que depois de lamentações, estão a surgir sinais de bom senso de revisão de procedimentos e de alteração da gestão das vidas privadas e familiares. Passageiros ocasionais de transportes andam mais a pé, o que é saudável e reduz as despesas. Há muita despesa que pode ser suprimida sem prejuízo sensível para a qualidade de vida. As férias da Páscoa estão a ser planeadas com custos inferiores aos tradicionais. Certamente os gastos em ostentação e luxo também passarão a ser considerados menos necessários.

Tem aumentado o número de famílias auxiliadas pela Cáritas sinal de que as dificuldades são reais e muito sérias, havendo lugar para os jovens mais dinâmicos sacarem as suas capacidades de inovação e empreendedorismo para criarem pequenas actividades produtivas de bens e de serviços necessários e exportáveis e darem emprego a pessoas desempregadas. O facto de possuir um diploma não deve impedir que se desenvolva uma actividade de sector diferente mas que seja útil à sociedade e ao próprio, sem perder a esperança num futuro de que se goste mais.

EDUCAR

Para se iniciar a profunda transformação da sociedade ocidental, necessária para desacelerar o processo de degenerescência de que sofre e que a pode levar num futuro não muito distante a ocupar um lugar muito secundário na humanidade, é preciso dar primordial atenção à educação das crianças.

Para isso, os pais têm de estar «redobradamente atentos», sem privar as crianças do essencial, mas explicando com verdade, a realidade e a crise e consciencializando para o valor do dinheiro que é finito e que, por isso tem que gerido com racionalidade. Levá-las a reformular hábitos, banindo o que é supérfluo, isto é educar os filhos a dar mais importância «ao ser» do que «ao ter». Um dos aspectos positivos que podem surgir da crise pode ser o de os pais poderem ter mais disponibilidade de tempo para o «envolvimento afectivo e emocional com os seus filhos», evitando dar uma dimensão catastrófica da vida e reforçando o conceito de que o ser humano é dotado de uma capacidade de adaptação às adversidades.

E, se não reagirmos da forma mais construtiva estaremos a aceitar o rápido declínio de uma civilização que foi a preponderante no mundo desde há cerca de cinco séculos e passaremos a um lugar obscuro na escala mundial. Hoje a actividade dominante é a ligada à alta tecnologia, hoje nas mãos de países asiáticos, tanto no hardware como no software. No nosso caso, mesmo as actividades menos sofisticadas estão em mãos de imigrantes por os nossos jovens não quererem fazer trabalhos alheios ao sector da sua «preparação».

Tudo isso precisa de uma reciclagem de âmbito cívico e realista, porque o mundo que nos espera será muito diferente daquele a que estamos habituados. As pessoas não podem continuar a gastar aquilo que não têm por não o ganharem, pela perda de produtividade, e depois recorrerem irracionalmente a empréstimos não reprodutivos que pioram a situação.

Aproveitemos a crise para pensar e mudar para um sistema de vida mais seguro em relação ao presente e ao futuro.

Imagem do Google

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Ensino - Ferramenta do desenvolvimento

Publicado em 5 de Fevereiro de 2007 no Do Miradouro.

O convite para ombrear com escritores tão competentes, tanto no aspecto literário como na capacidade de investigação e análise e na explanação de raciocínios bem elaborados de forma lógica e racional constitui para mim um desafio difícil mas também uma oportunidade de aprender com eles, com as suas opiniões orientadas para o aprofundamento de assuntos que virão enriquecer os meus conhecimentos. Porém, temo não poder dar grande contributo por ser um ignorante, descomprometido, fora de qualquer sistema e que apenas pretende olhar com isenção, à distância, no âmbito dos conceitos, os problemas que condicionam o desenvolvimento de Portugal que amo, embora me desiluda em muitos aspectos. Procurarei traduzir a posição do pastor de cabras da Serra da Estrela, sem escolaridade significativa, sem acesso à comunicação social, limitando-se ao pequeno rádio de pilhas, e aos contactos eventuais quando da ida à aldeia comprar o pão e as azeitonas que lhe servem de alimento na serra. Mas do alto do mirante, olhando de longe planície, os pensamentos vogam libertos, sem amarras, fixando-se num ou outro ponto que pareça mais significativo na vida colectiva. Crítico, por vezes incisivo, por vezes irónico, ele deixa sempre uma pista, mais ou menos explícita e optimista para sair da situação em observação. Quem veste esta capa serrana, merece condescendência, compreensão e tolerância, qualidades que todos devemos cultivar para que o convívio numa sociedade civilizada seja mais harmónico e pacífico. Procuro ser merecedor da boa vontade dos meus leitores.

Orientado pelo grande desejo de ver o País no caminho dos maiores, escolho para abertura da minha colaboração o tema do Ensino, por ele constituir a base em que assenta tudo o que de melhor pode ser feito, para engrandecer este rectângulo pequeno, mas com «metástases» de emigrantes em todos os continentes. É de desejar e esperar que surjam opiniões diferentes, até frontalmente opostas às que aqui deixo, mas peço que não me chamem burro, mesmo que possa parecê-lo, pois para mostrarem que não concordam com as minhas opiniões, a melhor forma é exporem as vossas e explicarem as vossas razões e deduzirem soluções, práticas e viáveis, para os problemas que afectam o futuro dos nossos vindouros.

O ensino é uma parte da educação, tendo esta início desde o nascimento da criança ou, segundo alguns cientistas, desde a gestação, pois o feto já é receptivo a influências do ambiente sonoro em que a mãe se movimenta. Mas, após o nascimento e com as primeiras mamadas, a criança começa a receber condicionamentos das suas atitudes e comportamento que é desejável serem adequados à sua integração na sociedade. A palavra disciplina poderá parecer muito agressiva, mas no fundo é disso que se trata, pois o civismo, o convívio com os outros não a dispensam. A integração na família e na sociedade obriga a «ter maneiras», isto é, a respeitar os direitos dos outros a fim de merecer o direito a ser respeitado. Em sociedade ninguém tem apenas direitos, tem também deveres para com os outros e, por isso, é errado convencer as crianças que têm direito a tudo e nenhum dever para com a sociedade. Essa educação consiste em ensinamentos de convivência, ou como agora fica bem dizer, de democracia, de civismo, quer na família quer na sociedade em que a criança se vai sentindo à vontade e vai exercitando a sua vida. Simultaneamente, a criança, ao manusear os seus brinquedos e ao imitar os pais nos trabalhos em casa, vai aprendendo a utilizar os talheres e outras ferramentas e a fazer alguns serviços, começando a ter o seu quarto e os seus pertences arrumados.

E, entretanto, chega o momento de pertencer a uma família mais alargada, mas mais uniforme ao entrar na creche, no ensino pré-escolar e por aí adiante. Nessa altura, já é tarde para lhe ser ensinado aquilo que devia ter aprendido com a mãe desde os primeiros dias de vida. É suposto que essa matéria já está sabida e já não é fácil ser ensinada e aprendida. Tudo tem o seu momento ideal. Daqui, uma primeira dedução: a educação começa em casa e não se pode culpar o ensino das consequências da ausência da acção educativa familiar.

Mas também, no ensino, a qualquer nível, os professores não devem restringir a sua actuação a papaguear o assunto do manual, sem mais comentários. Não faltam oportunidades para explicar a utilidade prática do conhecimento teórico. Recordo com muita satisfação, depois de muitas décadas, os ensinamentos práticos ouvidos dos professores de Físico-Química, Ciências Naturais, Matemática, etc. Que Deus os tenha em repouso pelo bem que me fizeram. Ao falar-se das leis da alavanca, pode ensinar-se o funcionamento da chave de parafusos e a importância do diâmetro do seu cabo; e ao falar-se da energia cinética pode explicar-se o funcionamento do martelo, e a importância do seu peso e do comprimento do cabo, ou o perigo da velocidade excessiva na segurança rodoviária, etc.

Quanto à preparação dos jovens para a vida prática é impressionante a ignorância da realidade (excepto do futebol!) com que hoje se chega à vida adulta, o que tem sido notório em concursos televisivos. Soube, há cerca de 20 anos, que num quartel do Exército foi indagado junto dos recrutas quem sabia de pedreiro, pintor, canalizador, electricista, mecânico, serralheiro, etc. Ninguém sabia. À pergunta do que tinham feito na vida, reposta era sempre a mesma, eram estudantes. O resultado era totalmente diferente 10 anos antes, porque havia escolas técnicas e, nessa idade, já havia muita gente empregada. Outro caso: o filho de um casal conhecido pediu-me para lhe arranjar emprego numa grande tipografia, o que não me foi difícil, mas passados poucos dias desistiu porque tinha sido colocado como ajudante na equipa de uma máquina impressora e o que ele pretendia era «trabalhar» num gabinete com um computador!

O Ensino deve ser olhado por professores e alunos como uma aquisição útil para a vida, uma ferramenta indispensável em qualquer profissão. Sem a convicção da sua utilidade, os alunos poderão não se sentir motivados para uma dedicação séria ao estudo. «O saber não ocupa lugar» diz o ditado e podemos acrescentar que nunca é supérfluo e «até morrer andamos a aprender». Quanto mais é o saber, melhor é a análise global dos assuntos e a sua inserção e interacção no conjunto dos conhecimentos. A tentação muito vulgar de se utilizarem modelos (as chocas) arrasta por vezes para erros muito perigosos devido ao facto de, ao fazer a colagem, não ter sido feita a necessária adequação à alteração dos dados, das circunstâncias. Não há soluções eternamente válidas, elas devem ser permanentemente adequadas às condições ambientais, circunstanciais, sempre em alteração.

O desenvolvimento da memória com a tabuada e da capacidade de método e de raciocínio com a resolução de problemas de matemática são um exemplo prático para esclarecer sobre a utilidade do ensino para a vida desde as acções mais simples às mais complexas. É vulgar ver pessoas a emitirem opinião sobre um assunto que não conhecem minimamente sem terem arrolado a analisado os dados, sem terem relacionado estes em função do objectivo pretendido, sem o terem equacionado por forma a visualizarem cada uma das vias possíveis para chegar ao fim, sem as terem comparado em cada um dos seus vários aspectos a fim de poderem escolher a melhor, a qual será a solução mais adequada, económica, eficaz e rápida. Viver é fazer escolhas e estas obrigam a um método de preparação que não deve restringir-se ao conhecimento dos preparadores bem preparados, mas ser divulgado à generalidade das pessoas, para lhes tornar as vidas mais eficientes e reduzir os desaires.

Por tudo isto, além de bons programas que consigam dar realce tanto à parte científica como às técnicas que permitam a sua utilidade prática, são necessários professores que, em cada momento, não se esqueçam de que estão a formar pessoas, como uma tela em branco a transformar numa obra de arte, uma porção de argila a tornar numa escultura. Não podem refugiar-se na desculpa de que os alunos vinham mal educados de casa ou mal preparados do ano anterior. Há que fazer um esforço para suprir essas deficiências e conseguir a elaboração da obra de arte final, em que gostem de se rever.

Mas, para o ensino funcionar com professores que actuem como artistas, é preciso que estes sejam pessoas bem preparadas, dispondo da educação que possam transmitir através do exemplo e da palavra, sabedores da matéria que ensinam, e com uma noção alargada da utilidade prática do saber que transmitem. Um professor, perante os seus alunos, não pode estar preocupado com qualquer problema pessoal que, nesse momento, deve estar fechado à chave numa gaveta do seu cérebro. A formação dum qualquer bom profissional leva-o a colocar de lado a sua vida privada no momento em que deve concentrar-se na actividade do seu mister, principalmente quando se trata de comunicar com pessoas, como é o caso dos professores.

Não deve contribuir-se para que a criança interprete liberdade como libertinagem. A criança deve aprender a ser um cidadão digno e competente, procurando a excelência. Não pode recusar-se a estudar um ou outro assunto com o pretexto de que isso não interessa para a carreira que quer seguir. Por exemplo, um médico deve grande parte da sua formação a assuntos diferentes da ciência médica em sentido restrito: tem de saber bem português para interpretar os tratados de medicina e para se expressar de forma clara nos trabalhos que escreve, tem de saber línguas para pesquisar em publicações estrangeiras e comunicar com colegas de outros países, tem de saber matemática, física e química para perceber e exprimir-se sobre assuntos da especialidade, etc. Há, pois, uma base alargada que é indispensável em qualquer profissão, porque um bom profissional não pode comparar-se a um robô, tem de perceber e raciocinar sobre o que está a fazer e ter capacidade de evoluir. Cabe aos pais e aos professores esclarecerem os alunos sobre a necessidade da cultura geral e estimulá-los na sua obtenção.

Tendo sempre presente a finalidade do ensino como ferramenta do desenvolvimento, não pode ser manipulado para caprichos de «intelectuais» para experiências abstrusas, autênticas masturbações idílicas, onanismos virtuais, como é o caso da TLEBS (Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário) que tanto espaço tem ocupado na Comunicação Social, tal é a insensatez em que assenta. E a pior utilização abusiva dos alunos veio há dias nos noticiários e refere um a crianças de pouco mais de 10 anos acerca da vida sexual dos pais. O ensino, dada a importância de que se reveste na vida dos povos modernos, deve ser respeitado pelas famílias dos estudantes, por estes e, fundamentalmente pelos professores e outros responsáveis pelo sistema educacional. Olhando para as notícias mais recentes conclui-se que o Ministério da Educação está a precisar de uma vassoura mecânica, daquelas que não descriminam pela cor dos olhos, nem por amizade, nem por confiança política, nem por pressões dos lobis editores. Em seguida, a ministra, se não for levada pela vassoura, escolherá pessoas inteligentes, competentes, com espírito de serviço público competentes, que se orientem pelos interesses nacionais e objectivos do ensino e não segundo s suas ambições pessoais, dos amigos ou dos partidos. Portugal precisa de saneamento, desde o básico ao superior.

Não posso encerrar estas reflexões sem referir as infra-estruturas físicas – a escola. Esta deve ser espaçosa, limpa, arrumada, para tornar possível o ensino e para criar hábitos positivos nos alunos. Estes devem poder estudar, conviver e distrair-se com alegria, comodidade e segurança. A prática de desportos tem o mérito de enfatizar o conceito da conveniência do trabalho de equipa. Não é admissível que os alunos ou os professores sejam vítimas de violências ou agressões, venham de onde vierem. A educação e o ensino exigem que na sociedade em geral e nas escolas, em particular, haja o culto do respeito por cada um e a observância de princípios e valores universalmente defensáveis. Tudo evolui, mas há valores que são perenes, convindo diferenciar o que é transitório daquilo que é permanente numa sociedade civilizada e democrática.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Carta de missão para os novos dirigentes 050525

(Publicada em A Capital em 25 de Maio de 2005)

O País vive um regime de partidocracia que, com os seus defeitos e virtudes, deve seguir princípios de bom senso, coerência e responsabilização. Tal como a democracia geral apresenta debilidades que a desacreditam, também acontece o mesmo com a partidocracia, em especial. Geralmente, as notícias dão-nos uma imagem pouco lisonjeira e apetecível das prioridades dos políticos as quais parecem ter a seguinte sequência: acima de tudo, o interesse pessoal, seguindo-se-lhe o do partido e, depois o do País. Mas, agora, estão a surgir casos em que os interesses pessoais se revestem de uma prioridade tão escandalosa que rejeitam o mínimo respeito pelas decisões do respectivo partido.

Apesar destas fraquezas dos partidos, a partidocracia tem pernas para andar, embora pareça que tem de ser revista a modalidade de consensos nacionais com vista a enfrentar da melhor forma a definição de directrizes e de procedimentos de longo prazo, convergentes para objectivos de crescimento e desenvolvimento sociocultural e económico. Assiste-se, actualmente, à substituição de mais de duas dezenas de titulares de lugares de topo da administração pública, constando que as pessoas escolhidas merecerão consenso dos partidos e que terão de assinar um compromisso de carta de missão com objectivos quantificados, o que dará alguma garantia de continuidade dos aspectos positivos e de redução do risco de desvios graves.

Porém, a carta de missão e os objectivos não podem ser elaborados de ânimo ligeiro, exigindo que a montante estejam definidos quer o «conceito estratégico nacional», quer o conceito do respectivo sector, logicamente convergente para as finalidades daquele. Se a substituição periódica de tão elevado número de dirigentes cria alterações no funcionamento da máquina administrativa, a existência de directrizes estabelecidas por consenso interpartidário e a carta de missão, permitem esperar que as alterações contribuam para melhorar de forma sustentada a sua eficácia.

Todavia, existe o receio de as missões e os objectivos se inscreverem na burocracia e na legalidade vigente, o que nos coloca as seguintes dúvidas quanto ao futuro. Qual é a capacidade de inovação e de originalidade permitida aos dirigentes? Que esperança de modernização e de crescimento e desenvolvimento resultarão desse processo? Mas, por outro lado, se não houver directrizes superiores, gerais e de longo prazo, que assegurem a convergência de todos os sectores da vida pública, não é lógico nem correcto nem sensato dar liberdade de inovação e de criatividade. Logo, as directrizes, ou o conceito estratégico, são fundamentais e imprescindíveis para a recuperação do País, sem o que o pântano, já há anos referido, se transformará num lodaçal putrefacto, pestilento e nauseabundo. Ficamos à espera do bom senso dos Governantes e líderes dos principais partidos, para bem de Portugal.

O País vive um regime de partidocracia que, com os seus defeitos e virtudes, deve seguir princípios de bom senso, coerência e responsabilização. Tal como a democracia geral apresenta debilidades que a desacreditam, também acontece o mesmo com a partidocracia, em especial. Geralmente, as notícias dão-nos uma imagem pouco lisonjeira e apetecível das prioridades dos políticos as quais parecem ter a seguinte sequência: acima de tudo, o interesse pessoal, seguindo-se-lhe o do partido e, depois o do País. Mas, agora, estão a surgir casos em que os interesses pessoais se revestem de uma prioridade tão escandalosa que rejeitam o mínimo respeito pelas decisões do respectivo partido.

Apesar destas fraquezas dos partidos, a partidocracia tem pernas para andar, embora pareça que tem de ser revista a modalidade de consensos nacionais com vista a enfrentar da melhor forma a definição de directrizes e de procedimentos de longo prazo, convergentes para objectivos de crescimento e desenvolvimento sociocultural e económico. Assiste-se, actualmente, à substituição de mais de duas dezenas de titulares de lugares de topo da administração pública, constando que as pessoas escolhidas merecerão consenso dos partidos e que terão de assinar um compromisso de carta de missão com objectivos quantificados, o que dará alguma garantia de continuidade dos aspectos positivos e de redução do risco de desvios graves.

Porém, a carta de missão e os objectivos não podem ser elaborados de ânimo ligeiro, exigindo que a montante estejam definidos quer o «conceito estratégico nacional», quer o conceito do respectivo sector, logicamente convergente para as finalidades daquele. Se a substituição periódica de tão elevado número de dirigentes cria alterações no funcionamento da máquina administrativa, a existência de directrizes estabelecidas por consenso interpartidário e a carta de missão, permitem esperar que as alterações contribuam para melhorar de forma sustentada a sua eficácia.

Todavia, existe o receio de as missões e os objectivos se inscreverem na burocracia e na legalidade vigente, o que nos coloca as seguintes dúvidas quanto ao futuro. Qual é a capacidade de inovação e de originalidade permitida aos dirigentes? Que esperança de modernização e de crescimento e desenvolvimento resultarão desse processo? Mas, por outro lado, se não houver directrizes superiores, gerais e de longo prazo, que assegurem a convergência de todos os sectores da vida pública, não é lógico nem correcto nem sensato dar liberdade de inovação e de criatividade. Logo, as directrizes, ou o conceito estratégico, são fundamentais e imprescindíveis para a recuperação do País, sem o que o pântano, já há anos referido, se transformará num lodaçal putrefacto, pestilento e nauseabundo. Ficamos à espera do bom senso dos Governantes e líderes dos principais partidos, para bem de Portugal.

Directriz para o crescimento. 050524

(Publicada no Diário de Notícias em 24 de Maio de 2005)

A propósito da crise financeira que apoquenta o País, ouvi de um conceituado académico que as medidas drásticas preconizadas por grandes economistas têm de entrar já em efectivação, sem demora. O prazo está esgotado e Portugal não pode esperar mais por reformas profundas. Os custos eleitorais de tais decisões são elevados mas não podem ser encarados como obstáculo intransponível. Este obstáculo pode e deve, por patriotismo, ser ultrapassado através de consenso entre os principais partidos, não só por razões eleitorais, mas principalmente por razões de eficácia, pois, para a reforma resultar, tem de ser continuada nos próximos mandatos, por não ser obra a ser consolidada num prazo curto.

E a reforma, para ser benéfica para o País tem de resultar de um estudo que termine na proposta do «conceito estratégico nacional» o qual, como bem tem defendido o Professor Adriano Moreira, pensador por quem nutro o mais profundo respeito, constitui uma directriz com vista ao futuro do País, partindo das características deste, da sua história e do seu presente, colocando a tónica naquilo que é essencial e na optimização dos recursos disponíveis. Será essa directriz que permite definir, para cada sector da vida pública (cada ministério) aquilo que é essencial e aquilo que, não sendo imprescindível para os objectivos finais do planeamento, poderá ser sacrificado, mesmo que pontualmente e segundo critérios casuísticos.

Esta reflexão conduz ao âmago da questão de ser mais ou menos errado ceder a fanatismos e fundamentalismos como os da defesa intransigente da «natureza» por a «lei» assim o estabelecer. Como o futuro tem muito de incerteza, imprevisto e imponderável, a directriz tem de ser ajustada com frequência, sempre com o mais largo consenso partidário, não podendo ficar definitivamente amarrada a leis elaboradas num passado mais ou menos distante, eventualmente correctas para uma situação dessa data, mas que já não é a de hoje e, muito menos, a do futuro que se pretende.

É perante essa directriz (esse «conceito estratégico nacional») que devemos avaliar se o futuro deve assentar prioritariamente no turismo ou nos sobreiros de Benavente e nas pedras e mato de Belmonte. Sem uma directriz de consenso nacional, corre-se o risco de os governos, mesmo com a mais pura das intenções, tomarem decisões incoerentes e divergentes do verdadeiro interesse nacional, movendo-se em zig-zag, ou com avanços e recuos, consumindo recursos e energias de forma improdutiva e atrasando ou impossibilitando a chegada à meta do desenvolvimento e do crescimento sócio-económico.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Estratégia de futuro ou táctica quotidiana? 041122

(Publicada no Público em 22 de Novembro de 2004)

O relatório do Banco de Portugal esclarece que o consumo tem crescido ultimamente, o que, à primeira vista, pode significar movimentação da economia e criação de riqueza para os agentes económicos. Porém, a realidade não dá para optimismo, pois este aumento de consumo está relacionado com o acentuado crescimento das importações o que, dado o reduzido incremento das exportações, denota aumento do défice da balança comercial, isto é, da dívida externa.

Estranhamente, nada disto foi referido pelos deputados economistas na discussão do Orçamento do Estado. Limitaram-se a jogo de palavras, tricas partidárias, «guerra do alecrim e da manjerona», sem ousarem entrar nos problemas de fundo que têm de ser encarados a sério, para que o país não se afunde numa espiral de atraso em relação à Europa.

E assim vai o país, sem ninguém que use a sabedoria e a coragem de traçar directrizes estratégicas que levem os portugueses a ter a esperança no futuro deste rectângulo cantado pelos poetas como jardim à beira-mar plantado, isto é, no futuro das condições de vida que serão legadas aos filhos e aos netos. Nada se diz, nada se vê escrito sobre as medidas tendentes a revitalizar a economia e a aumentar as exportações. Desconhece-se quais os sectores da economia e os produtos industriais ou de serviços para os quais Portugal está mais vocacionado.

Ao pensar nesta desagradável situação, recordo as grandes ideias que presidiram ao desenvolvimento económico de países hoje florescentes como Taiwan, Coreia do Sul e Índia. Qualquer deles iniciou o seu desenvolvimento rápido, começando por incentivar as indústrias orientadas para a substituição das importações, a fim de reduzirem o défice externo. Depois orientaram-se para a indústria pesada dirigida para a industrialização interna e para a exportação com competitividade capaz de fazer face à concorrência internacional. Na fase mais recente, voltaram-se para as indústrias ligeiras ligadas às altas tecnologias e aos serviços com elevado pendor de software. E a história mostra que foram estratégias eficientes, com resultados inquestionáveis.

Pelo contrário, por cá, não se ouve falar de estratégias, nem sequer no momento mais sensível da discussão do OE. Contentamo-nos com a táctica quotidiana do consumismo que dá dinheiro a armazenistas, vendedores e revendedores, que, em grande parte fogem aos impostos, e que contribuem pra o esvaziamento das divisas para pagar os produtos importados. E o Natal está à porta com o pico do consumismo de coisas inúteis. Será que os políticos se recusam a pensar nestas coisas essenciais?

Prioridade ao presente ou ao futuro? 070703

(Publicada na GR n.º 182, pág. 7, de 3 de Julho de 2004)

Na crónica «O ministro do futuro» de José Manuel Barata-Feyo na GR 179 de 12 Junho, é referida a antítese imediato-futuro. É um tema que, cada vez mais, devia ser debatido porque se, quando visto do lado teórico, não levanta grandes objecções, quando chega o momento de ser levado à prática, deixa de haver coerência e convergência de opiniões.

Nos tempos que correm, esquece-se a estratégia e procura-se concretizar a táctica imediata. O planeamento de acções que exijam grandes prazos de realização não é interessante para conquistar votos nas eleições que se aproximam. Hoje não se construiriam monumentos como os Jerónimos ou a Batalha cujas obras demoraram muitos anos. Hoje apenas se inicia aquilo de que se posa fazer a inauguração, o que significa o prazo de uma legislatura. Chega até a fazer-se várias inaugurações – a da ideia (como a ponte Chelas Barreiro!!), a da adjudicação do projecto, da aprovação deste, da adjudicação da obra e, antes de esta acabar, a inauguração propriamente dita.

É vulgar ouvir-se defender que as pessoas vivem AGORA e que ou são felizes AGORA ou o não o serão nunca. Não devemos viver o presente sacrificados com a justificação de virmos a ter um futuro melhor. Porém, se sacrificamos o AGORA de hoje, sacrificaremos também o AGORA de amanhã e daqui a 20 ou 30 anos e acabamos por ter uma vida e de permanente esforço não compensado. Teoricamente isto está certo. Devemos ter a melhor qualidade de vida, em cada momento. Mas o bom senso aconselha a que as decisões de hoje não devem colocar em perigo o AGORA de amanhã. Não devemos prejudicar a nossa possibilidade de sermos felizes no futuro, nem a dos nossos filhos, netos e mais descendentes. Não temos o direito de, por egoísmo ou irresponsabilidade, estragar o ambiente, em qualquer das suas vertentes – flora, fauna, água, ar, etc. Os autores de agressões ecológicas, como aquelas a que temos assistido, através da comunicação social, não podem ser verdadeiramente felizes, embora obtenham mais lucros por não investirem na preservação do ambiente. Mas não basta a condenação da sua consciência, são indispensáveis punições exemplares na sequência de uma investigação, que tenha fins dissuasores e preventivos e que detecte qualquer infracção antes de atingir efeitos devastadores. Os governos, com os organismos estatais adequados não podem continuar a deixar impunes os responsáveis pelas poluições de rios, terrenos e atmosfera, pelos fogos florestais e pelas indústrias altamente poluentes.

A incúria na prevenção de tais agressões a um bem que é da comunidade levam a descrer das vantagens da Democracia que não consegue defender os legítimos interesses dos povos, defesa essa que é o mais alto objectivo dos representantes eleitos.

Há que procurar um ponto intermédio entre os ecologistas fundamentalistas que pretendem o sacrifício total do AGORA e os governantes e outros oportunistas que desprezam a salvaguarda do futuro em benefício de interesses imediatos, egoístas e lucrativos.

Qual o futuro deste país? . 021024

(Publicado no «Público», 24 de Outubro de 2002)

Uma das virtudes da democracia é a garantia de direitos dos cidadãos: religião, associação, opinião, expressão, etc. Um regime democrático deve ter por objectivo assegurar o bem-estar e o direito à procura da felicidade a todos os cidadãos.

Porém, assistimos a coisas confusas. Uma é a exoneração de um general, pelo facto de , no seu cargo não poder ter opinião que desagrade ao Governo ou ao PR. Tem de concordar cega e incondicionalmente com os líderes políticos. Enfim, tem de ser um autómato, um «yes man». Pergunto: a quem interessa um tal indivíduo?

É possível que, com tais excelsas virtudes, agrade àquele grupo de indivíduos que se reúnem no «cabaré da coxa» a apelidarem-se mutuamente de mentirosos, palermas e a deixarem subentender outros epítetos mais elucidativos, em espectáculos impróprios para pessoas sensíveis, além desses mimos que trocam entre si (e nos quais devemos acreditar porque eles conhecem-se bem!) falam de tricas e coscuvilhices que pouco ou nada contribuem para os grandes objectivos da democracia que atrás referi.

Sei que, em plena guerra do Ultramar, a política do governo era analisada e criticada nas salas de aula do IAEM em Pedrouços. Preparavam-se, assim, generais esclarecidos, com capacidade de análise, com competência para apresentarem propostas (mesmo que o Governo as não aproveitasse). Agora, pelo contrário, o poder político não dá aos generais o direito de pensarem e dizerem o que pensam. Têm que se limitar a papaguear «his master’s voice».

Porém, não consta que tenha sido exercida repressão semelhante, que tenha sido imposta qualquer mordaça a profissionais de outros sectores (a não ser na Polícia Judiciária e na PSP do Porto). Quem garantirá, no futuro, a soberania e a segurança do nosso país?

P.S.: Para que não restem dúvidas e não sejam levantadas especulações de me moverem motivações políticas anti-governo, declaro que votei no Partido do Ministro da Defesa, nas últimas eleições, mas não sou um amordaçado incondicional.

Fixar a rota para a frente. 020909

(Publicado no «Público», 9 de Setembro de 2002)

Em Portugal passam-se coisas estranhas, contrárias ao progresso e que, assim, justificam o nosso atraso em relação aos parceiros europeus.

Quando certas actividades ilegais se tornam frequentes, em vez de serem tomadas medidas que as evitem, altera-se a lei de modo a que elas deixem de ser ilegais. Não sei onde iremos parar, por este caminho íngreme.

Em defesa de algumas dessas «modernas» medidas legislativas, surge agora com um ênfase digno do «Velho do Restelo», tão caricaturado por Camões, o endeusamento da tradição. Espero que tal atitude não nos coloque a viver, novamente, sem água canalizada, sem electricidade, sem telefone, sem estradas alcatroadas, sem automóveis, etc. etc.

A tradição, o apego às nossas raízes, é bonito como folclore, como artesanato e pouco mais. Nós, como qualquer país que queira acompanhar o progresso dos outros países do mundo, temos que inovar, que procurar formas mais originais, eficientes e civilizadas de resolver as coisas. Temos que ser mais criativos e isso não se compadece com apelar, com exagerado apego, à tradição, para que tudo volte aos tempos da pedra lascada. Parece que queremos imitar, na sua capacidade de retrocesso, o Presidente do Zimbabwe, em vez de fixarmos atentamente o esforço de modernização em curso na Coreia do Norte que quer romper com a tradição, como bem nos conta no seu artigo, a jornalista APC, na página 11 do PÚBLICO de 31 de Julho.

Num mundo que avança a uma velocidade estonteante (analisemos os avanços da tecnologia ocorridos na última década), não se pode perder muito tempo a olhar para trás; só o necessário para melhor fixar a rota para a frente.